quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Movimentos.

- Vejo as duas sacolas grandes ali ao lado do guarda-roupa, à espera do transporte para doação, e sinto alívio. Pensando no misterioso fato de sempre ter muitas coisas para doar -roupas, livros, objetos etc.- ainda que raramente compre alguma coisa, cheguei à conclusão de que muito do que tenho vem de fora: família, amigos, conhecidos. Gosto da afetividade, dos pequenos gestos, mas gosto ainda mais da liberdade de manter comigo só aquilo com que eu quero ficar. Posse não tem nada a ver com gesto; desprezo aquele quando sem função prática, aprecio este quando desapegado de vaidade. A fixação de um afeto é líquida e circula pela memória, não por escombros. 

- Às voltas com os mortos, físicos e metafísicos, tenho lidado com o desconforto do vazio. É preciso verificar o que de fértil e sólido resta de um solo implodido diante dos olhos. Talvez eu esteja aprendendo a frequentar os funerais, a sujar o tênis na terra falsamente paradisíaca dos cemitérios para me contaminar dos germes que chacoalharão comigo pelas horas que se seguirem e chorar as lágrimas pelos mortos, todos os mortos, que talvez já estivessem mortos mas cujos corpos eu insistia em carregar sobre os ombros. 

- Há esses eventos que tornam as coisas pequenas ainda menores. As vindas que afirmam as idas, que rejeitam o supérfluo, que colocam o que é instável à prova, que dão firmeza e precisão às palavras que precisam emergir. Não há nada que exista sem movimento; o movimento que finalmente cede espaço ao que não tinha lugar e precisava ter, o movimento que higieniza o que está empoeirado e rinítico, o movimento que anistia o que se fixou por falta de vigor, o movimento que desloca as associações baseadas em ego, conveniência ou resiliência. Gosto do que vai, gosto do que fica; são complementares.

- Nada se compara à realidade, e os anos têm me convencido disso. Há muita feiura na passagem dos dias, na observação e no contato com o outro, nos mecanismos do cotidiano, mas nisso está o valor dos pequenos episódios de beleza. A realidade só pode ser admissível pela expectativa do raro, e o raro só se faz ver pelo movimento.