quarta-feira, 13 de julho de 2016

Onde eu sei morar.

- Talvez seja mesmo preciso ressuscitar algumas coisas para deixá-las ir embora de vez. É o que mais tenho feito nas últimas semanas: estou cercada de mortos.

- Tenho passado os dias pensando em como ter uma relação harmoniosa com o meu corpo. Aparentemente, ter radicalizado na vida saudável ano passado (muita atividade física, alimentação orgânica e saudável, nada de açúcar, nada de gorduranada artificial) só me trouxe, literalmente, dor e sofrimento - além de uma internação hospitalar. Retomando certa bagaceira way of life, aos poucos vou encontrando algum equilíbrio e, a esta altura de 2016, talvez se desenhe no horizonte um jeito de conviver bem com meus combalidos órgãos.

- Gostaria de ter apenas uma atividade principal por dia e ter a liberdade de decidir o que fazer no tempo restante, mas, por algum motivo misterioso, quando me dou conta estou soterrada de compromissos a cumprir.

- Estudar literatura tem me soado um contrassenso inadmissível. Nunca li tão pouco por lazer como nos últimos anos. A vida se torna uma angústia em torno de teorias, compromissos e atividades acadêmicas que estraçalham qualquer possibilidade de puxar um livro da estante e ler com prazer. Escrever ficção -algo que faço desde adolescente por diversão- tem se tornado impossível. [É nisso tudo em que costumo pensar alguns segundos antes de fazer matrícula.]

- Nunca desconfiei tanto das pessoas como agora. Aparentemente tudo virou uma grande cilada, Bino.

- As pessoas ainda perdem tempo defendendo com os dentes seus políticos/partidos de estimação enquanto o número de moradores de rua aumenta de forma assustadoramente avassaladora. 

- Vivendo alguns dias em Lençóis, na Chapada Diamantina, percebi que não preciso sair do país para me sentir estrangeira, mas de outro jeito. Lá tive a sensação de estar muito confortavelmente morando em uma casa à qual eu não pertenço, mas adoraria pertencer. Pensei -muitas vezes, e muito seriamente- em me mudar para lá, dar aulas no grupo escolar para o João e a Fernanda, almoçar cortado de palma todo dia n'O Bode -que eu chamaria de Bode Grill-, passar a tarde comendo uns biscoitinhos Joaquim Teodoro recém-saídos do forno com a Geisa e circular pela Rua das Pedras cumprimentando os comerciantes todo fim de tarde num looping infinito até eu me tornar a pessoa que poderia chamar um lugar como aquele de casa: a pessoa que não tem pressa, que está integrada à natureza, que se conecta com a terra, que pula na cachoeira cheia de intimidade com as pedras em que os turistas se estabacam, que não tem alergias alimentares, que conhece as pessoas por nome e endereço, que precisa de muito pouco para viver, que diz "pronto" com propriedade, que acha que o único forró possível é o de raiz. 

- São Paulo, eu sei, é a casa barulhenta com roupa suja espalhada e macarrão à bolonhesa quentinho onde eu sei morar.