terça-feira, 7 de junho de 2016

Débora.

A gente se conheceu em 1997 dentro do ônibus, uniformes iguais. Você estava no ginásio; eu, no colegial. Logo descobrimos que tínhamos muito em comum: morávamos no mesmo bairro, éramos viciadas em vôlei e achávamos os garotos do bairro uns tapados. Nos dias de aula, enquanto eu me espremia pelos corredores do colégio na tentativa de matar aula com as amigas e fugir da bedel de cabelo acaju e corpo mirrado, eu sempre passava na frente da sua sala para acenar e te mandar beijos. O seu relacionamento com a mãe não era bom, nem o meu com a minha, seu pai era um babaca alcoólatra e ausente, a gente não tinha muito pra onde ir - pais no pé, pouca grana. Na vila, o projeto de vida das garotas era casar e encher a casa de filhos com os quais iriam para a igreja todos os dias; no colégio, em outra cidade, mas tão provinciana quanto nosso bairro, o anseio da rapaziada era ir todo fim de semana às matinês de Pinheiros e beijar o maior número de bocas possível. A gente não queria nada disso, mas também não sabia o que querer. Talvez só mesmo vôlei, o rock que tocava na 89 e as noites de fim de semana na calçada falando bobagem com os meninos do bairro que também gostavam de vôlei e do rock que tocava na 89. Você levou a doçura a um extremo jamais visto, adoçando o leite com toddy, encharcando a pipoca com açúcar e anilina, fazendo estoques de chocolate e jujubas. Com você aprendi que o sabonete de enxofre era ótimo para espinhas e que o perfume maravilhoso que ficava nas roupas que eu te emprestava se chamava Kriska. Eu não conseguia te acompanhar nas corridas: você ali, deusa Nice, de caneleiras e rímel, rindo da minha cara por eu não aguentar chegar sequer até o pedágio. O seu sorriso era tão incrível que era impossível eu querer deixar de fazer graça quando a gente estava junta. Passávamos as tardes cantando errado as músicas do Offspring, esboçando planos para um futuro que teríamos em comum. No dia de prestar vestibular você estava ali comigo, me esperando na saída pra saber como eu tinha ido na prova - eu disse que provavelmente um lixo, você deu de ombros e a gente foi comer uns croissants de chocolate numa padaria ali perto. A cada decepção amorosa, vibe depressiva e frustração ali estava o colo uma da outra. Nunca caímos enquanto estávamos juntas. Mesmo com tanto afeto nos distanciamos: você foi aprovada num concurso e foi morar em outra cidade, na qual também começou a fazer faculdade, curiosamente o mesmo lugar onde agora faço mestrado e onde nos reencontramos no ano passado, após eu receber, muito feliz, uma mensagem sua. Nos vimos outra vez, trocamos muitas mensagens, telefonemas. Você me contou tudo: eu soube da morte da sua mãe, da mudança de estado de sua única irmã, da tentativa frustrada de aproximação com o pai, dos relacionamentos que não deram pé, do emprego corrosivo, da solidão, dos vícios, da solidão, das internações, da solidão, da vontade de desistir de tudo, da solidão, dos tratamentos, da solidão. Te chamei pra vir pra perto de mim, insisti pra largar tudo naquela cidade tóxica. Fiz tanto por telefone, por whatsapp, por telepatia e por onde mais minha comodidade permitiu fazer. Por vezes você sumia, preferia não falar, e eu daqui tocava a vida sem entender a ação que tudo o que você compartilhava comigo exigia. Desta vez você sumiu por muito tempo, e meu coração ficou aflito, pesado. Quando enxerguei o que precisava ser feito era tarde demais, irreparavelmente tarde demais. Agora só o que ficou foi uma dor que não tem tamanho dentro de mim, uma dor que finalmente extrapolou o virtual em que eu nos coloquei depois de a gente existir junta por tanto tempo. Você trouxe sua dor e eu a coloquei nas limitações da minha zona de conforto. Eu te peço perdão, amiga. Eu só queria ter estado aí pra te dizer que a gente vai dar um jeito em tudo isso. Desculpa por ter sido incapaz de te manter comigo, me perdoa por ter perdido você, Dedé.

9 de julho de 2015