segunda-feira, 18 de abril de 2016

Oscar dos horrores

O dia até que amanheceu bem bonito, enquanto seguimos perdidos e atordoados. O circo do impeachment de ontem foi um espetáculo triste, deplorável, vergonhoso. A representação de cada mínima treva humana está(ava) ali, na câmara, usando a tribuna para se dirigir à vovó, ao vovô, à esposa, aos filhinhos, a Deus e, na mesma toada, a torturadores e militares. Governa-se em razão de representação familiar, para conquistar um lugar no céu, para honrar ancestrais e ídolos oxidados. A população é de uma irrelevância assustadora.

Não acho que o pedido de impeachment da presidente Dilma seja golpe; acredito que existam desmandos econômicos e administrativos que justifiquem o impedimento, dentro do contexto de premissas que um presidente deve atender quando em exercício. O que, no entanto, me parece indiscutivelmente um golpe é a forma como o processo tem sido conduzido: a partir de uma vingança pessoal de Cunha - pela negativa da presidente em orientar seu partido a blindá-lo no conselho de ética contra as acusações às quais ele DEVE responder -, orquestrado em comunhão com o vice Michel Temer, a quem tamanho poder desenhado no horizonte jamais chegaria por voto popular e que vê nesta atual situação uma oportunidade única de ação, não poupando recursos e manobras.

É difícil tomar partido do PT, e não o faço há tempos. O partido rompeu há muito o compromisso com a esquerda, ao priorizar uma governabilidade que colocou no poder o que há de mais retrógrado e desumano na política brasileira, de modo que as medidas aprovadas representam não o eco de discursos passados do partido, mas sim o daqueles que foram empoderados e que agora salivam como cães loucos em busca de mais poder - um poder que a combalida presidenta não é mais capaz de oferecer.

Se por um lado, em eleições passadas, outros candidatos de esquerda foram ridicularizados pelo próprio PT ao anunciarem seus planos de governo, por supostamente estarem em desacordo com uma realidade de execução, por outro lado o PT instaurou uma governabilidade que tornou impossível a aprovação e execução de suas bandeiras históricas, e que ainda empoderou uma leva de políticos que deveria estar o mais longe possível de qualquer cargo público. Incluindo nessa leva o vice-presidente que agora conspira à espreita do comando do país. 

O Oscar dos horrores de ontem - no qual os políticos pareciam, antes, agradecer a entidades diversas pelo poder obtido, em vez de se deter com profundidade à situação a que estavam investidos de analisar - revelou quem são e o que pensam nossos deputados, um a um, alguns segundos para além da propaganda eleitoral obrigatória. A mim parece o suficiente para vislumbrar uma longa treva, infinda, da qual sairemos apenas quando tomarmos o processo eleitoral mais a fundo, com problematizações que ultrapassem a perspectiva do "menos pior".

Para além da pergunta futura que eu gostaria de ver respondida - o que será da esquerda no Brasil a partir dos embates políticos e dos governos dos anos 2000 -, fica também o imenso desconforto com este momento. Há, sabemos, uma importante situação administrativa a ser resolvida, mas a maioria esmagadora de nossos políticos, ao que se revelou ontem, pouco ou nenhum conhecimento/interesse tem a respeito. O desmando é absoluto, estamos à deriva. Como retomar o norte? O impeachment é realmente capaz de trazer alguma solução efetiva, que ultrapasse a barreira de uma breve e superficial trégua com o mercado, ou vai trazer apenas alguma movimentação política àqueles a quem se permitiu jogar?

Tenho muitas dúvidas, pouca esperança.