quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Cara ou coroa.

Seu Eduardo tem 74 anos. Está na quinta sessão de fisioterapia da bacia, fraturada após escorregar numa casca de banana na feira. A esposa morreu em 1989, os filhos moram no Rio de Janeiro. Seu Eduardo, de olhos fundos e com uma melancólica e indefectível cara de bunda, sempre foi muito tímido, tendo permanecido solteiro após a morte da esposa e perdido anualmente os poucos amigos que conquistara durante os tempos de união com a amável e popular Dona Teresa. 

Seu Eduardo conhece poucos rostos de mulheres, por pouco contemplá-los, e é apenas à força das fotos que relembra o rosto da falecida esposa. Sabe-se também que Seu Eduardo deixou de emitir palavras reconhecíveis nos anos 1990, a última ocorrência concreta tendo sido um eita! em 1994 à ocasião do gol de Saeed Al-Owairan em partida contra a Bélgica na fase de grupos da Copa do Mundo.

É a quinta sessão de fisioterapia e lá está Seu Eduardo, de crocs bege, regata branca e bermuda estilo safari, tomando uns choques ali pelos glúteos, deitado de bruços, cara virada para o lado esquerdo, lado este em que estão a plena visão as partes de Juliana, uma adolescente de seus 16 anos, involuntariamente arrebitadinha, choquinhos nas costas, que percebe o olhar deliciado de Seu Eduardo em direção à vagina acurveada pela calça legging azul marinho. Indignada pelo despencar libidinoso dos lábios acolagenados, estala os dedos e lança um ei! trovejante na direção do velho descarado que, a esta altura, corre descalço em sunga de crochê pelas praias de Copacabana de mãos dadas com aquela buceta amorosa, aquela buceta metafísica, aquela buceta bronzeadinha a lançar a cabeleira pelos mares cariocas.

Quando volta para casa, o som que ecoa na casa de Seu Eduardo, com sua melancólica e indefectível cara de bunda, é o do silêncio. Mas a buceta, ah, a bucetinha!