segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Aulas de zumba.

Ouço uns barulhos no meio da madrugada e fico tensa com a possibilidade de ter alguém na lavanderia, mas bastam alguns segundos de raciocínio pra concluir que é bastante improvável que alguém escale três andares de uma parede lisa só para pular minha janela velhinha. Não que isso me acalme ou me ajude a dormir; ao menos me faz não sair da cama, ligar pra polícia ou cutucar F. 

Se houvesse um dublê meu à minha disposição, privado de sensações, que apenas ouvisse minhas instruções e agisse, certamente eu sempre faria a coisa certa. Meus nervos seriam um gatinho no banho de sol da manhã, e eu raramente seria inconveniente: choraria muito raramente fora de casa, conseguiria não falar a verdade quando me fizessem perguntas que só precisam de respostas protocolares e certamente acharia tudo muito normal e natural, porque as coisas são racionalmente muito normais e naturais dentro de toda a sua insanidade. 

Talvez um bom propósito de vida seja me imaginar já como minha própria dublê e colocar essa autoterceirização sentimental em prática; talvez um bom propósito de vida seja botar umas polainas rosa-choque e fazer umas aulas de zumba para sacudir e espanar meus nervos e fantasmas -que, a propósito, já meteram umas pantufas e estão cagando no meu banheiro com a porta aberta.