sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Diga você.

Lá está ela, sempre à beira de qualquer coisa, mas nunca em lugar nenhum. Tão confortável no limite de alguma coisa, sempre à beira, sempre quase ali, com ameaças que não se concretizam, com promessas que não se realizam, com a mesa cheia de papéis, com problemas para resolver depois, com viagens para viajar depois, com pequenas felicidades que chegarão via um cavalo branco eternamente amarrado num haras muito distante, com o plano -feito há nove anos- de só comprar aquela calça quando perder vinte quilos, com o desejo -que já dura doze anos- de sair à noite para dançar. Lá está ela, sentada, com o dedo trêmulo apontado para as putas, para as outras, para todas  as outras que não são como ela -que sabe esperar, que não está aí pra bagunça. Que sabe se vestir como uma mulher de respeito, que sabe se maquiar como uma mulher de respeito, que sabe falar como uma mulher de respeito. A histeria, o grito descontrolado que arrebenta os corredores, as escadas, as janelas, é a de encher de decibéis um mundo oco, sem personagens, como se gritasse para um espelho rachado posicionado bem à frente. À frente dela. 

As visões que se perdem no horizonte, no despertar do relógio, no pingado do boteco, no refrigerante gelado -porque cerveja é coisa de vadia. Alguma coisa estala ali dentro quando ela se descontrola, quando ela grita, quando ela quebra copos, quando bate as portas, e ela ouve atentamente o som. Mas o som, esse que ela ouve, é só o som do silêncio, da distância de todas nós. Da distância de você.


Eles te disseram isso, eles vêm dizendo isso há tanto tempo, eles vêm empurrando isso há tantos anos. Isso não é você. Isso não são elas, não somos nós. Ouça você. Diga você.