terça-feira, 16 de junho de 2015

Infelicidade é medicina diagnóstica.

Olho para as roupas no cabideiro e não me reconheço nelas. Não me reconheço nas histórias e músicas que se espremem nas estantes, nos cubos, nas prateleiras. Não reconheço a sala, a cozinha, o quarto. Minha escrivaninha se tornou ociosa: trabalho no sofá, na cama, no chão de taco. Tudo parece misterioso, emprestado de um sonho que se repete noite após noite mas que não me diz nada, só me atormenta. As coisas estão como deveriam estar, no lugar em que deveriam estar, com a função que deveriam ter, mas não me dizem mais o que diziam. Não me reconheço no que faço, nos jantares, nos encontros, no hidratante labial cor de hibisco. 

Os dias seguem misteriosos. 

E também felizes, bem felizes, dentro de meu modesto ideal de felicidade, dentro de minhas modestas pretensões de vida, de modo que não faço a mínima ideia do que se trata isso tudo -esse incômodo, esse mistério- de que estou falando.