quarta-feira, 6 de maio de 2015

Não o centro, a borda.

Para mim, uma das cenas mais bonitas da história do cinema é a de Solomon Northup, de 12 anos de escravidão, cantando com os demais escravos durante o funeral de um negro na propriedade em que estavam encerrados. Naquele momento, Solomon, um homem livre, erudito, violinista, até então alheio à escravidão por viver livre entre brancos com sua família, compreende enfim que não está ali por um equívoco, por uma conspiração pessoal; está ali porque é negro. Está ali porque há um problema muito maior por trás do problema que assola a experiência individual dele. É lindo, maravilhosamente lindo, ver Solomon enfim entoar o hino no funeral de mãos dadas com os outros negros, se entregando aquele ritual, finalmente entendendo que não há ele e os outros; há nós, um nós ao qual ele não se via pertencer até então. Essa cena mudou algo dentro de mim, em definitivo. Não me recordo de uma passagem de filme que tenha me emocionado tanto quanto essa, e que tenha sido tão reveladora também - daí a grandeza que atribuo ao filme, um dos mais consistentes tratados cinematográficos sobre a escravidão e sobre o maior desmando da humanidade até os dias de hoje, a violência racial. 

Mas não há ali apenas um tratado sobre a escravidão. O filme vai além e ao ponto: à natureza humana.

Um dos grandes equívocos de uma existência é aspirar protagonismo nos problemas que existem, em qualquer problema. É preciso enxergar a que terra o umbigo fundo que nos marca se conecta. Esse umbigo é um pontinho numa borda imensa que precisa se delinear por completo para mirar um centro visível. Onde está a borda, ali precisamos estar. Qualquer outro lugar é ilusório.