segunda-feira, 11 de maio de 2015

Fresta.

Descascar os inhames, bater e coar o leite; preparar o café da manhã. Redigir um texto, separar as provas e trabalhos para correção. Consultar o saldo, cobrar atrasados, aguardar repostas, organizar cronogramas. Abro a janela e entra um vento gelado que derruba o pacote de polvilho com orelhas de pregador em cima da mesa. Penso no que deveria fazer, o que deveria fazer e não fiz, o que deveria fazer e não farei, o que deveria gostar de fazer e não gosto. Faço uma pequena lista mental de felicidades, preparo o almoço, aqueço a água para o chá. Retomo papéis, arquivos, prazos, cobranças. Vejo cair uma lasca do esmalte marrom que passei na sexta-feira -trinta e sete minutos de mãos trêmulas em vai e vem- ouço a vizinha adolescente cantar uma música que parece falar sobre amor ou sobre carros -nunca sei. Penso nos prazos, nas pequenas felicidades, nas coisas que eu deveria fazer e não farei, e tento achar uma relação lógica entre isso tudo aqui dentro enquanto os passos decididos do zelador culminam em minha porta, com o cardápio de uma pizzaria nova enfiado pela fresta da porta.