terça-feira, 24 de março de 2015

Libertar a própria bunda.

Aos 25 anos, percebi que aos vinte não me tornei a pessoa de sucesso que chegaria de conversível na escola da minha irmã caçula para buscá-la. 

Aos 30, fui um pouco além e percebi que não me tornei merda nenhuma. Não virei aviadora, não ganhei um Nobel de literatura, sequer aprendi a pilotar ou a escrever. Não me tornei popular, mas também não me tornei impopular o bastante para alimentar algum mistério sobre mim. O google nunca me reconheceu de imediato, mas, numa busca mais aprofundada, sempre constei ali nas últimas páginas como uma figura simplista, mediana, ocupando uma profissão que quase ninguém sabe do que se trata, falando de coisas cuja origem é meu umbigo tão fundo que mal consigo ver onde ele começa. O medo de parecer indiscutivelmente ridícula e tapada sempre me privou de tentar o que parecesse propenso a decepção, e isso sempre me impeliu a achar as pessoas que tentam e que falham as mais patéticas da galáxia. 

É engraçado como a falta de autoestima já me fez apontar o dedo e arreganhar os dentes pra tanta gente ao longo da vida. Me fez ser intolerante, ranzinza, chorosa, vitimizada e tantas outras merdas afins.

Isso tudo é o que pensei quando uma amiga me perguntou, dia desses, como era fazer 34 anos, se eu sentia algum peso por isso etc.

Miga, envelhecer é se livrar de chorume, preconceito, recalque, culpa, vergonha de falhar, vergonha de passar vergonha. Eu tenho tanta pena de mim aos vinte e poucos, aos trinta e poucos, que, se eu pudesse, voltaria no tempo só pra me dar umas bifas na cara até cair sanguinho na sarjeta. Quanta bobagem, quanta falta de coragem de encarar uma derrota, quanta vontade de ser vencedora de coisas que não significam absolutamente nada. E quanta projeção de tudo isso nos outros, acusando as pessoas de medíocres, estúpidas, idiotas, fracassadas. Quanta tentativa de diminuir as pessoas para eu me sentir maior.

Que merda é a imaturidade.

Envelhecer é perceber que todo mundo tem uma sunga furada pra arrancar do rêgo. E se encher de coragem e disposição quando perceber que precisa enfiar a mão fundo pra libertar a própria bunda.