terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Michel.

Vi o Michel umas duas ou três vezes. Da primeira, quando Felipe nos apresentou, ele tinha uns cachos bonitos caindo pela cara, um sorriso imenso. Estava com um copo de cerveja na mão e a gente trocou umas quatro ou cinco frases, uma delas uns versos meio concretistas que ele disse e que eu não sou capaz de lembrar. Ele parecia um cara legal, bebendo e cantando em algum cantinho escondido da Vila Madalena - no saudoso tempo em que a Vila Madalena ainda tinha espaço pra gente descabelada e sem grana. Não o vi por muito tempo. Soube que ele trabalhava no correio, havia casado, estava feliz. Um amigo comentou o quanto ele era talentoso, escrevia, compunha coisas bonitas. Ele parecia um cara legal, desses com quem eu poderia ter bebido e falado coisas sem sentido, desses com quem eu poderia ter falado sobre literatura, desses que poderiam ter sido meu melhor amigo. Mas eu quase não conversei com o Michel, quase não o vi, não sei o que ele sentia, o que fazia à tarde, qual livro o fez chorar. Ontem eu soube que o Michel não está mais aqui. Sufocou sozinho até extinguir qualquer possibilidade, qualquer projeto, qualquer plano. Talvez ele tenha existido na imaginação e no pensamento de muita gente, mas na realidade de poucas. Como outras pessoas que conheci e que sufocaram por aí, sozinhas, agora lembradas com melancolia. Que você descanse em paz, Michel.