segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Uma forma que nunca vai caber nas minhas mãos.

Sonho alguma coisa envolvendo dois pássaros bicando as minhas mãos e um pacote de monstrinhos creck sabor morango. Acordo com o ombro direito doendo de leve, mandíbula deslocada, mãos descascando. Lavo o rosto e meus olhos ardem mesmo após o soro e o colírio. Ajeito a pia antes de fazer um suco ardido de limão, maçã e gengibre que desce rasgando a garganta. Pego a sacola com os cremes manipulados, que eu havia deixado de lado desde o início de minhas miniférias. Talvez não façam mais efeito. Tenho isso de deixar tudo de lado nos dias de descanso. A vingança das coisas é ressurgir como um raio. Alguns dias sem acessar um aplicativo com o qual me comunico com uma amiga distante e ali está ela, se recuperando de uma quase morte; deixo as plantas à própria sorte e a vizinha brada pelos corredores que sou uma criminosa ambiental; abandono livros, cadernos, trabalhos, projetos e planos num limbo mental temporariamente inacessível e eles retomam em meu último dia de férias sob a forma de bruxismo noturno implacável. Penso em conversar sobre o quanto me incomoda o excesso de virtualidade e de saudosismo dele, mas estou de férias. Não de férias o bastante para murchar e murchá-lo comigo, homeopatia do desgaste sentimental. 

Levo o notebook para o quarto e começo a trabalhar. Pela janela do terceiro andar, pouco se move. Há o canto dos periquitos, as buzinas, as sirenes, o som dos automóveis, mas em meu campo de visão só os galhos de uma árvore distante se movem. O resto é inércia de prédios a perder de vista com varandas gigantes. As pessoas compram apartamentos com varandas cada vez maiores por algum motivo misterioso. Elas nunca estão lá. Conto 23 andares no prédio à frente, dois apartamentos por andar. Há poltronas, redes, plantas, bonecos e enfeites de natal. Não há ninguém lá, nunca. As varandas são os olhos dos prédios. Todos estão cegos. 

Eu estou aqui, num prédio de três andares, num corpo de medidas variáveis. O que me faz estar aqui são os meus problemas de gerenciamento da realidade. Não sei lidar com a rotina; não sei lidar com a ausência dela. Tudo parece sempre estar meio descompensado, mas acredito no equilíbrio e é essa crença que faz eu seguir em busca de algo que provavelmente nunca vou alcançar.

Não tenho metas para este ano. (Na verdade, tudo gira meio que em torno de um projeto de cortar o cabelo até o quase banimento e de conseguir ler mais por prazer.)

Alongo os braços, exercito a mandíbula, passo um creme nas mãos. Organizo a caixa de e-mails, separo os arquivos de trabalho, planejo o volume de produção, deixo o frango na pia para descongelar, escolho os legumes, coloco um isotônico para gelar na esperança de correr um pouco no fim da tarde. Assim começa mais um ano: tudo parece se ajeitar aos poucos, e é nessa tentativa de equilíbrio que os dias tomam forma. Uma forma que nunca vai caber nas minhas mãos.