segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Cabelo joãozinho.

Na primeira vez em que pisei numa escola, eu tinha cabelo joãozinho e vestia bermuda azul e camiseta branca, e, numa dessas ciladas de estereótipo em que somos metidos desde a infância, fui enfiada numa fileira de meninos para, assim, mão no ombro, andar militarzinho, partir do pátio da escola rumo a primeira sala de aula que frequentei na vida, na EMEI Maria José Dupré. Por estar me divertindo horrores com os moleques, o equívoco de gênero só foi percebido quando no meio do trajeto a professora perguntou meu nome. Criançada confusa. Lucianinha crossdresser.

Cheguei em casa choramingando e, a partir daí, cresci com minha mãe fazendo cachinhos no meu cabelo sempre comprido. Os tempos eram difíceis, a verba era curta, mas uma costureira do bairro fazia sob medida os vestidos mais bonitos que eu poderia usar. Eu parecia pura fofura, mas eu não era essa criança. Eu era de trocar sopapo, jogar taco na rua, rolar de bicicleta ladeira abaixo. Chorei no meu batizado porque molharam minha cabeça sem pedirem minha autorização. Cuidei como gente grande da minha irmã caçula. Descia do fusquinha da família que morria em plena Marginal Tietê e dava dura porque queria empurrar o carro também. Ouvia Raul Seixas e Racionais com meu pai.  

Quando as vacas engordaram um pouco e mudei para um colégio em que era preciso levantar da carteira toda vez que professores e diretores atravessavam a porta, virei de pequena e genial demônia a eterna semirrepetente depressiva. Passei a usar coque no cabelo para não exibir os cachos em meio a tantas meninas de cabelo liso. Ser do sexo feminino passava a ter outra conotação. Minha força só era desejável nos esportes, e foi jogando vôlei que resgatei parte da minha personalidade.

Na adolescência e no início da vida adulta, a cara cheia de espinhas e a magrelice me levaram para outra realidade: a de uma garota desengonçada que usava o humor como escudo para ser querida e amada. Mais adiante, comecei a achar excesso de humor e de ironia duas coisas muito cansativas. Rir junto, chorar sozinha.

Atravessando as ruínas de uma autoestima inconstante, enfrentei uma tormenta de crise de identidade. As opções de personalidade eram ruins, como se eu tivesse que escolher entre modelos disponíveis nas prateleiras do inferno. Cuidar de um dinossauro por dentro sem nenhum veterinário especialista.

Tudo isso é fato, mas, se alguém consultar minha família, eles dirão que eu sempre fui cordata e doce. Boa aluna, tranquila. Tenho essa cara que inspira presentes com bichinhos e lacinhos. Causo estranheza com um cigarro e um copo de cerveja na mão. Meus palavrões provavelmente parecem saídos da boca de um ursinho carinhoso com arco-íris no peito. Minha cara sempre confundiu até a mim mesma.

Em meio a toda essa reflexão, a passagem do tempo tem sido um grande alívio. Envelhecer meio que é atravessar todas as roubadas interiores e deixar morrer coisas que não servem mais. Nessa empreitada cronológica, tenho aprendido a deixar pessoas, objetos, memórias, rancores, felicidades circunstanciais, culpas, remorsos e dores rolarem ladeira abaixo sem a menor cerimônia, sem sequer tirar um lenço da bolsa pra acenar com uma lagriminha.  

Todos os meus erros e acertos me trouxeram até aqui. Onde estou agora, novamente e enfim de cabelo joãozinho, uma meia dúzia de metáforas ruins envolvendo animais em extinção ou um silêncio para dividir. Os dias passam e só sobra espaço para o que eu posso e quero ser. Não sei quantos anos terei adiante, se serão bons ou ruins; só sei que esses anos, poucos ou muitos, serão todos meus.