quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Toda mulher é uma mulher.

Dentre as tantas bizarrices televisionadas mostradas aleatoriamente e em versão compacta no excelente Um dia na vida (2010), de Eduardo Coutinho, vê-se um recorte de um desses programas em que mulheres passam por uma "transformação completa". Numa das imagens, são mostradas mulheres que, após serem maquiadas, penteadas, vestidas e submetidas a procedimentos estéticos, beijam o espelho e choram compulsivamente. Há comoção do público. Uma mulher que, segundo a legenda, sentia-se muito feia e, por isso, acreditava que jamais iria se casar, finalmente "conquista a beleza".

Esses programas frequentemente atribuem essas "transformações" ao resgate da feminilidade. "Olha como ela está bonita", "Veja como agora está feminina!" são frases que levam a plateia à catarse. 

O conceito de beleza feminina obedece ao rígido princípio de uniformidade. É preciso não ter nenhuma deformidade na aparência. Pele sem estrias, sem celulite, sem manchas, sem depressões, sem rugas, sem linhas finas, sem poros evidentes (!). Dentes perfeitamente alinhados. Sobrancelhas sem pelos fora de um arco milimetricamente formatado. Cabelos sem frizz. Unhas sem cutícula. Peitos e bundas ascendentes e firmes, orelhas e narizes pequenos. Barrigas alinhadas à virilha. 

Campanhas publicitárias, cada uma à sua maneira, naturalizam a ideia de que se deve ser "bonita". E que a beleza é acessível a todas a partir do consumo. Algumas empresas fazem isso sob a alegação de que todas somos iguais, todas bonitas. "Bonita", penso sempre, é um termo que traz toda essa carga de uniformização. Se a genética não a tiver "presenteado" com um corpo "uniforme", será preciso dar duro. Ter disciplina. Comprar cosméticos e dermocosméticos caros. Visitar incansavelmente a dermatologista, a esteticista, a academia, o cabeleireiro, a manicure, a nutricionista. Tudo isso para ser "bonita"; para ser "feminina".

Quando alguém diz "todas as mulheres são bonitas" com ares humanizadores sempre dou uma coçadinha de cabeça. Dizer que "todas as mulheres são bonitas" é reforçar a ideia de que a beleza é o principal ideal a ser perseguido por uma mulher, de que uma coisa está condicionada à outra. Desse modo, século após século, "como você está bonita" se torna a característica mais relevante que uma mulher pode querer ter. Não quero com isso dizer que "ser/estar/se sentir/parecer bonita" não possa ser uma sensação bem-vinda; o problema é essa constatação ter uma carga tão opressivamente protagonista que qualquer coisa que não parta da ideia de "você é bonita" gera a ideia de não pertencimento ao feminino.

Todas as pessoas têm os mesmos direitos, mas as pessoas não são iguais. Não são tampinhas de garrafa produzidas em série. Um adjetivo não é comprovação de gênero, não é passaporte para a existência. 

Toda mulher - independentemente do sexo de nascimento - é uma mulher.