terça-feira, 25 de novembro de 2014

Mais gente no tronco.

Eu me sinto envergonhada toda vez que preciso ligar para o SAC de uma empresa e reivindicar algum direito, em geral um serviço já pago e não prestado, um serviço cobrado indevidamente ou um produto que foi entregue com defeito. Essa vergonha acontece porque já sei que, em algum momento, o atendente visivelmente estressado e não habilitado para resolver problemas específicos dirá que aquilo tudo não é culpa dele. E, sim, sei que não é. Sei que não há resposta além daquelas que estão nas cartilhas que eles são obrigados a decorar. 

Minha principal sensação é a de que as empresas em geral usam seus funcionários como bois de piranha para, por meio de nosso humanismo, nos forçar a aceitar com resignação todas as deficiências que elas (empresas) possuem e, assim, comprar novos aparelhos e serviços em vez de exigir boa qualidade naqueles que adquirimos. Não vamos constranger pessoas agindo dia após dia como bárbaros sem coração, falando como aristocratas desumanos com nossos iguais enquanto somos tratados como senhores e senhoras. Ser chamada de "senhora" numa ligação em que reivindico um serviço é uma forma de me colocar em um lugar em que não quero estar quando lido com um igual: no lugar de alguém superior, que se vale dessa posição para coagir um semelhante a agir em benefício de meus caprichos.

O jogo das empresas é muito sutil, e resvala internamente numa sensação de luta de classes que, na verdade, deveria estar em outro nível: do consumidor com conglomerados multinacionais milionários, que estão interessados apenas em multiplicar seus rendimentos em detrimento da qualidade dos produtos e serviços que oferecem. No entanto, somos atirados a uma luta de classes na qual as partes confrontadas somos os consumidores e os atendentes que, conforme suas cartilhas exigem, nos chamam de senhores e senhoras e assim, sem saber, nos questionam: até quando você quer ser um senhorio de escravos? 

Para aliviar a culpa que se sente a partir desse questionamento, acabamos por achar natural a perenidade dos objetos e aceitar a falta de respostas e soluções. O máximo que se pode fazer é dar um suspiro e reclamar que as coisas duram muito pouco mesmo. Esbravejar um pouquinho mais às vezes e prometer a si mesmo nunca mais comprar nada de empresa x ou y. Cancelar um serviço e deixar para lá.

Como não quero constranger um igual a me chamar de senhora, a achar respostas que não tem, a se estressar e a ser submetido às minhas vilanias, sou impelida a comprar novos produtos e serviços, fazendo girar, assim, a roda do consumo e do enriquecimento das empresas.

Vejo, por exemplo, a rapaziada por aí dizer que tinha um ótimo refrigerador ou celular, mas que "durou só um ano". Um ano costuma ser o prazo para finalizar o pagamento das parcelas no cartão de crédito da maioria das pessoas; é também o tempo necessário para surgir uma nova versão do aparelho, muito mais rápida, mais potente, com mais funções, mais power. Assim, aparentemente um ano é o limite máximo de tempo que distancia uma pessoa do presente de uma pessoa do passado. Alguém que reclama para um servo de um aparelho ou serviço já superado de alguém que tem um aparelho ou serviço de última geração, e por isso não precisa submeter ninguém a seus desmandos. Um ano, enfim, é o que separa um homem ultrapassado de um hype arejado. A aposta das grandes empresas é a de que ninguém quer estar no passado ou parecer um escravocrata. Uma aposta certeira e altamente lucrativa. 

Em poucos dias a Black Friday estampará a página inicial de muitos sites, transformando uma horda de homens das cavernas em cidadãos contemporâneos, alinhados com o seu tempo e que, portanto, consomem com entusiasmo e satisfação. Consumo é libertação, diz a mensagem. 

Na verdade, é só um jeito de fazer mais gente caber no tronco.