quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Corpo sujo de lama.

Alguém no prédio lê um texto em voz alta. Parece falar de amor, ou de como a tábua de cortar legumes é um objeto engraçado. A voz é ruim, a entonação é incômoda. Ouço muitas vozes durante o dia: os periquitos cantando nas árvores, a mulher da casa em frente ao prédio que grita sem cessar com tudo o que se move, as sirenes e buzinas em ebulição na avenida, a voz do homem do carro do pão caseiro, as panelas que chiam a partir das 11h, as correspondências escorregando por debaixo da porta, o latido doído e aliviado dos cachorros que pressentem a chegada ansiada, as crianças que cantam hip-hop ao voltar da escola, o barulho das chaves sendo engatilhadas minutos antes do estalo da maçaneta.

As vozes quando eu as ouço são uma tentativa frustrada de decodificação de sensações e sentimentos desconhecidos que estão ali, em algum poço muito fundo, muito escuro, no qual enfio os braços às cegas em busca de um toque raso. Os tendões doem, os ombros queimam, mas forço o movimento até onde posso alcançar, e assim resgato o ar e a poeira que o reveste na ilusão de ter as mãos cheias, de quase tocar a água fresca e movente que, de tanto desejar sentir, meus olhos presumem. 

Ali estou eu, à beira do poço, corpo sujo de lama. Há algum mistério em insistir na palavra, em atribuir sentidos às vozes. Em tentar alcançar sentimentos e organizá-los em torno de sílabas e estruturas ocas que a repetição assassina a movimentos miúdos, com estocadas de tesourinha cega. 

As palavras e os sentidos  tão insensatos, tão disformes, tão levianos  são o mecanismo que me prende ao poço e a tudo que ele pode conter. 

E ali, dia após dia, estou eu, corpo sujo de lama.