quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ilha e tubarões.

Enquanto separava uma pilha colossal de coisas que já não me servem mais por motivos cronológicos, físicos, afinitivos e emocionais, penso em quanto preciso de menos à medida que tenho menos. No momento, ganho quase nada em relação ao hiperbólico emprego anterior do qual optei sair, mas posso até me dar ao luxo de cantar "Égua Pocotó" em versão de ninar e rir sozinha em voz alta pelos cantos, ainda que a conta bancária não reflita toda essa joie de vivre

Trabalho com o que gosto, pesquiso o que gosto, convivo com quem gosto, cozinho o que gosto e tenho a impressão de não precisar de nada além do que tenho. Meus investimentos têm se restrito a grãos, ervas, frutas vermelhas e produtos sem parabenos e não comedogênicos para peles sensíveis e oleosas. Também comprei duas alpargatas no começo do mês. E isso é tudo o que consumi além do trivial no último semestre. O resto tem se resumido a aproveitar os dias e a fotografar pássaros dos quais nunca vou descobrir o nome.

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O zelador deixa na porta a revistinha do bairro. Na página ao lado das propagandas de escova de chocolate e de preenchimento tridimensional de sobrancelhas (o que quer que diabos isso signifique), há o horóscopo. A astróloga diz que o tema do mês é limiar e sugere o filme No limiar da vida, do Bergman. Acho a abordagem vanguardista. Arrisco ler a previsão do meu signo, que diz: "Ninguém é tão bom ou tão evoluído a ponto de ficar numa ilha deserta, evitando contato com tubarões". Enquanto penso na frase, olho a página ao lado. A sobrancelha da moça do preenchimento tridimensional me faz lembrar do Tu tu barão. Penso se é uma ironia fina ou um exímio exemplo de clarividência. 

Melhor assistir ao filme.