sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Sociedade da reprodução.

Hoje pela manhã, acompanhei no ônibus uma discussão um tanto acalorada sobre a polêmica envolvendo o goleiro Aranha. Uma senhora bradava que é absurdo “essa balbúrdia em cima da mocinha que falou lá um ‘macaco’ sem querer”; o rapaz ao lado dizia que o estardalhaço era ainda pouco, pois não há espaço para racismo no mundo.

Eu fiquei pensando sobre o tema. Acho que há, sim, um jeito bastante inadequado da mídia de tratar o tema. A torcedora virou um bode expiatório de uma situação que é problematizada em seu fim, não em seu meio. A gremista cometeu um ato racista, afirma a mídia. E ponto. Não se tem problematizado o cerne da questão, a origem de ofensas que, desde a infância, se tornam ideias repetidas antes mesmo de poderem ser assimiladas.

“Balofa”, “viadinho”, “nortista”, “cara de empregadinha”, “vagabunda” e “macaco” são exemplos de termos que concentram preconceitos estereotipados fartamente reproduzidos nos anos 80 e 90, e que hoje ainda persistem pelas ruas. Desse modo, assim como algumas pessoas emitem à exaustão preconceitos intolerantes sob o argumento de que habitam uma democracia, algumas tantas reproduzem preconceitos por não ter desenvolvimento suficiente para problematizar o termo e identificar que se trata de ofensa. Obviamente há sempre o mesmo produto final: o preconceito e toda a herança cultural de pobreza intelectual a que temos estado expostos.

A torcedora do Grêmio alegou repetidas vezes que não é racista, e que ofendeu o goleiro apenas no calor da gritaria instaurada no estádio. E eu acredito em parte nisso. Chovem por aí pessoas incapazes de problematizar as questões sociais - basta prestar atenção com mais profundidade para perceber isso. Mas isso, ao contrário de relativizar o problema, torna-o ainda mais problemático: há uma ignorância instaurada que leva quase automaticamente à reprodução de valores embasados em estratos sociais criados por meio de associações estereotipadas, como se uma horda de jovens simplesmente aceitasse o fato automático de serem superiores por, assim como seus pais, identificar sem nenhuma problematização esses pseudoestratos arquetípicos. “Sou branco, heterossexual, uso roupas ‘adequadas’ e me mantenho em forma” é a frase inocente por trás do discurso de pessoas que, como a torcedora, não são racistas, mas soltam um “macaco” aqui e acolá porque tá todo mundo gritando mesmo, então bora lá dar uma gritadinha também com meus iguais.

Há, sabemos, um sem-número de intolerantes conscientes e cada vez mais intolerantes, que matam negros, homossexuais, travestis, mulheres. A possibilidade de essas pessoas se conscientizarem, no entanto, é mínima. Igualmente triste, na minha concepção, é saber do sem-número de pessoas que simplesmente reproduzem estigmas sociais porque toda a rodinha de amigos ao seu redor cresceu ouvindo uma centena de barbaridades de forma altamente trivial, de modo a sequer enxergar minimamente o quão preconceituosas são suas “constatações”. Pode parecer ingenuidade colocar a questão nestes termos, pois sei que muitos consideram todo emissor de intolerância como preconceituoso consciente. Mas observo sempre atentamente esses tipos, e vejo mesmo essa diferença: preconceituosos conscientes (por herança ou sem) e preconceituosos apenas por herança, que nunca tiveram em seu meio interlocutores com os quais problematizar seus conceitos.

Acho que o grande mérito das punições legais aplicadas aos envolvidos na ofensa contra o goleiro habita justamente em criar uma cultura de problematização da intolerância. Julgamento por raça, cor, sexo e opção sexual, corpo deve, sim, ser criminalizado com rigor. Chamar de macaco, viadinho, balofa, vagabunda, empregadinha é ofensa, sim. É a redução de um ser humano a um estereótipo culturalmente visto como negativo e digno de envergonhamento, de exclusão social; não é apenas uma "zoeirinha que todo mundo faz mesmo".

É inadmissível que as próximas gerações sejam expostas desde a infância a valores que não têm espaço na sociedade. É uma pena, no entanto, que os veículos de comunicação não utilizem essas ocasiões para ampliar a discussão sobre esses temas, problematizando-os e gerando reflexão a respeito, até informando mesmo didaticamente sobre o que está histórica e culturalmente abrigado debaixo de certos termos. Enquanto isso, saber que algum holofote se volta à questão é algum jeito de se quebrar a ponta gigante de um iceberg colossal. Toda forma, ainda que desajeitada e oportunista, de se colocar em pauta um problema já tem lá sua serventia – mas é preciso que essas abordagens não introduzam na sociedade uma nova forma de intolerância, e sim que fomentem políticas de reeducação cultural.