terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sísifo de um ombro só.

Comprei uma esteira tempos atrás. Ela fica no quarto, ao lado da cama, mais especificamente do mesmo lado em que durmo. Eu a comprei por livre e espontânea vontade (sempre deixo isso claro porque a informação "tenho uma esteira" parece sempre causar desassossego na rapaziada) e faço bom uso dela, umas três ou quatro vezes por semana, 1 hora por dia. 

Corro/caminho em casa porque trabalho em casa - e quem trabalha em casa sabe que programar o tempo livre não é das coisas mais simples. Vou semanalmente para Campinas, por causa do mestrado, e esse é o máximo de deslocamento que consigo fazer durante a semana para conseguir tocar trabalho e estudos com um mínimo de decência. #vidadegado

A esteira me ajuda a esvaziar os problemas da cabeça: coloco uma série boba qualquer da netflix pra rodar, programo a esteira e ali fico por uma hora. Sou estabanada nível avançado, então preciso de concentração para ler as legendas (nunca consigo ouvir o áudio por causa do barulho da esteira) e, ao mesmo tempo, correr/caminhar dentro dos limites da lona sem ser sugada para dentro do aparelho.

Gosto do cansaço que sinto enquanto corro e gosto mais ainda da sensação de alívio e de relaxamento quando termino. Ter a esteira em casa é a forma que encontrei de fazer algum exercício sem ter de recorrer a academias ou afins, lugares em que normalmente perco tanto tempo formulando teorias sobre os rumos da humanidade  - originados, em geral, pelas músicas nonsenses em volume insuportável - que mal consigo relaxar. E exercício, para mim, trata-se de relaxamento, de libertação dos problemas em cartaz na mente. 

Criei a rotina de correr/caminhar há cerca de seis meses, e ultimamente tenho tentado correr em velocidades mais altas. Com isso meu ombro direito tem doído um pouquinho, o que tem me lembrado de algo que fui privada de fazer: jogar vôlei. 

Descobri o vôlei quando fui convencida a parar de jogar queimada porque supostamente não caía bem para uma ~mocinha~. Isso lá pela oitava série. Desde a infância meu problema com esportes é meu excesso de força - que o diga a rapaziada da rua que jogava taco comigo e temia a decapitação, ou temia um deslocamento de ombro ou algo do gênero no jogo de latinha, esse glorioso esporte das quebradas urbanas dos anos 1980. Na queimada, então, o esporte era praticado por mim em termos literais. Por isso o vôlei surgiu como algo mágico, porque eu descobri que podia canalizar a minha força contra o chão, e não contra as pessoas - no vôlei o objetivo é fazer a bola atingir o chão, ainda que isso envolva atingir pessoas vez ou outra. E assim as pessoas não me temiam e eu ainda ganhava abracinhos e até beijinhos quando fazia pontos. Jogar vôlei se tornou algo totalmente viciante. Além dos treinos - 4 vezes por semana, 3 horas por dia - eu também jogava no mínimo 20 horas adicionais por semana, com amigos ou onde quer que houvesse uma rede montada. Um total de pelo menos 30 horas na semana. 

Esses excessos aceleraram a vida útil do meu ombro: desde o diagnóstico de calcificação (tendinite calcificada) nunca mais consegui recuperar a força, e as tentativas de praticar vôlei causaram muita dor nas minhas articulações. Detonei meu ombro, em resumo. 

Estou há quase dez anos sem jogar, e passei este tempo todo tentando em vão achar algo que suprisse essa falta. Meu braço direito, pelo visto, era o canalizador ideal de tudo o que preciso banir de meu corpo. Ou talvez se tratasse mesmo de uma questão de associação: o vôlei representou um momento em que aprendi a lidar com questões pouco aparadas da infância, com autossabotamentos de fundo até então desconhecido; a ser paciente, disciplinada e passional de um jeito não agressivo. Mas eu exagerei, e essa bolha esportiva de autodescoberta e felicidade acabou estourando cedo demais. No meu ombro. 

Enquanto faço corrida três ou quatro vezes na semana, inevitavelmente movimento os braços e vez ou outra meu ombro direito dói, em especial quando corro a velocidades mais elevadas. Talvez para me lembrar de que eu ainda preciso aprender a eliminar os meus excessos sem machucar a mim mesma.