terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sê para ti mesmo a multidão.


"É preciso reservar um canto todo nosso, todo livre, e lá estabelecer nossa verdadeira liberdade e nosso principal retiro e solidão. Aí devemos praticar nossa conversa habitual, de nós para nós mesmos, e tão privada que nenhum convívio ou comunicação com as coisas externas encontre espaço: discorrer e rir, como se sem mulher, sem filhos e sem bens, sem séquito, sem criados, a fim de que, quando chegar o momento de sua perda, não nos seja novidade dispensá-los. Temos uma alma capaz de recolher-se em si mesma; ela pode se fazer companhia, tem com que atacar e com que se defender, com que receber e com que dar: não temamos nessa solidão embotar-nos em uma penosa ociosidade,

In solis sis tibi turba locis.

Nesses locais solitários sê para ti mesmo a multidão"

Montaigne, "Sobre a solidão", Ensaios (São Paulo, Companhia das Letras, 2010), p. 116-7.