terça-feira, 2 de setembro de 2014

Exu de papete roxa.

Todos os dias quando abro minha caixa de mensagem, há ali pelo menos 4 ou 5 spams de coisas pelas quais nunca tive o mínimo interesse. E todos os dias, religiosamente, eu me dou ao trabalho de abrir mensagem por mensagem e clicar no dito link de descadastramento. Por lei, ao que parece, se há a possibilidade de cancelamento de envio, então a mensagem não é spam. Há, no entanto, mensagens que possuem a indicação de um link no qual, ao clicar, aparece uma tela em branco, e não uma mensagem de descadastramento. Um jeito de burlar a lei e continuar espinafrando a vida de quem não quer saber de propaganda de meia térmica ou de produtos infalíveis para aumentar o pênis (sim, isso ainda existe e vem da Índia) na sua caixa de mensagens. Nesses casos, denuncio phishing. Não tenho ideia do que fazem com essa denúncia; se alguém faz apuração, põe navalha no queixo da malandragem spamzeira ameaçando fazer sanguinho. Mesmo assim, ali estou eu, paladina da justiça virtual, denunciando a rapaziada.

Eu sou metódica com meus e-mails. Costumo responder às mensagens que recebo o quanto antes, de preferência no momento em que leio, desde que isso seja possível. Deixo na caixa de entrada apenas as mensagens que contenham alguma pendência que ainda não resolvi: a cerveja que depende da agenda dazamiga, uma volta no parque com o amigo de coração partido, aquele cinema enroscado com a mocinha querida, o trabalho que preciso finalizar até semana que vem, a pizza na casa do caro recém-mudado. O que saiu do campo da pendência tem dois destinos: a lixeira ou uma das tantas pastinhas com nomes muito específicos. Yellow submarine para mensagens ternurinhas trocadas com camaradas. Dançando lambada para abrigar goiabices e afins. My funny valentine para as mensagens com açúcar, com afeto do queridinho. Kafka chateado para burocracias, e por aí vai. 

Na virtualidade, esse esquema funciona. Deleto mensagens e contatos indesejados, configuro minha caixa para repelir propaganda, esqueço no limbo mensagens de não íntimos que sequer contêm um "oi", "bom dia", "como vai?" ou "obrigada" (sou brega, gosto de educação).

Daí que tenho tentado aplicar essa política organizacional anti-spam à vida pessoal: guardo, aguardo ou deleto. 

Talvez tudo se trate de não deixar as coisas boas e leves ali, soterradas no meio de tanta coisa desnecessária, pesada, inútil. É preciso perder tempo, todo dia, infalivelmente, para não ser vitimado por uma avalanche de spams cotidianos que sempre teimam em despontar no horizonte à frente, não se abater, não desanimar, não perder o pique, a energia. É expulsar o exu de papete roxa sabendo que amanhã ele estará de volta. Não de papete roxa, mas com um crocs amarelo-limão. E assim sucessivamente numa espécie de remake eterno e duvidoso de O feitiço do tempo

Infelicidade, como diz Guimarães, é uma questão de prefixo. Um prefixo que todo dia bate à porta.