segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pouco espelho, muito reflexo.

antúrio morreu há algumas semanas. 

As outras plantas parecem ter gostado da ausência dele, já que, mesmo com o tempo cada vez mais seco, estão melhores do que nunca. É curioso perceber o quanto as plantas parecem ter tanta personalidade e desenvolverem empatia ou antipatia umas com as outras. No outro apartamento, o antúrio costumava ficar sozinho na sala, em uma parte bem iluminada e ventilada; as demais ficavam na varanda, e costumavam sacanear as plantas novas, que raramente resistiam à (não) socialização. No novo endereço, por falta de um espaço adequado dentro do apartamento, o antúrio teve de se juntar às demais plantas no corredor. Não houve perdão, e o queridinho, vítima de bullying vegetal, se foi. 

O antúrio foi um presente que estava comigo há cinco anos, desde que saí da casa dos meus pais. Juntos no apartamento acompanhamos a mudança dos dias, uma vida amorosa nova se fortalecer, alguns tantos momentos de tensão, outros tantos de alegria. A vida seguia seu rumo, e, nos momentos em que lá estava o antúrio com alguma folha seca ou amarelada, eu percebia que também eu estava amarelando. E toca cuidar da mão e da alma descascando, e também das folhas e da terra do antúrio.

Essa planta sempre me serviu de alerta. Bastava olhar para ela para enxergar o que estava acontecendo comigo. Em momentos em que as coisas não estavam bem, eu a deixava à própria sorte: esquecia de regar, podar, fertilizar, ajustar a posição para a iluminação natural certa. Porque é, provavelmente, assim que ajo comigo mesma quando as coisas deixam de fazer um pouco de sentido.

Após 5 anos dessa parceria silenciosa, o antúrio me deixou. Fiquei atônita por uns dias, porque tantas coisas aconteceram nestes anos e em todo esse tempo ele foi minha companhia e meu reflexo certeiro. Sem ele, eu estou por conta. Agora a coisa é comigo. Sem aviso, sem alerta.

Tenho tentado ajustar o cotidiano ("recomeçar, recomeçar, recomeçar, mil vezes recomeçar"): fazer uma limpeza de atividades e sentimentos, descartar qualquer coisa que não me sirva, ainda que essa coisa seja incrível. Sem o antúrio, este será meu exercício diário: o de ficar bem comigo mesma fazendo aquilo que me faz bem, e não aquilo que deveria me fazer bem. É um exercício muito difícil, porque deveria é, sempre, uma faca amolada. Mas vou ter de dar conta. O espelho é menor, mas o reflexo agora é só meu.