terça-feira, 10 de junho de 2014

Da vanguarda à desilusão.

Semana passada, visitei com uma amiga a Casa Modernista, aqui pertinho de onde moro. Há algum tempo, por passar frequentemente em frente à construção, eu alimentava a expectativa de uma visita - que, no entanto, demorou a se concretizar. Por motivos inexplicáveis.

Ao entrar ali, a sensação que o imóvel me proporcionou foi um pouco estranha, beirando a absoluta mediocridade. Talvez por efeito de uma conversa nonsense que desenvolvi com a Tainá a caminho da Casa, envolvendo bandidos sádicos e tatuagens de trechos da Ilíada em latim nos braços, entrei naquele baita jardim sem atentar à algo óbvio que em poucos minutos rememorei: a casa pertence ao final da década de 1920. Com esse dado em mente, aquela construção inicialmente tão óbvia e comum - apesar de ligeiros requintes e detalhes ainda tão vanguardistas no século 21, pós-Niemeyer - ganhou uma coloração toda especial. Há quase um século, pensei, aquela casa deve ter sido algo, de fato, (ops) modernista. 

Um parque absolutamente delicioso para se passear e uma piscina abandonada cheia de folhas secas sob a luz de fim de tarde que incidia na Casa geraram uma fotografia sinestésica adorável à Antonioni (não tenho fotos para comprovar; só a memória). E assim, pouco a pouco, entrelaçando a imagem da banheira moderninha dentro da casa vazia aos cachorros cabresteados com coleiras justas passeando com os seus donos sobre o gramado do jardim, aquilo tudo foi formando uma sensação muito peculiar - um pouco incômoda, mas também romântica: estranho pertencer a algo do passado, quando esse passado remete a um futuro que, no momento, é o presente.

Lembrei dessa visita hoje enquanto revisitava e atualizava uns projetos e sonhos de anos atrás. Não sei nomear muito bem a sensação de ainda ter alguns planos bobos que, há uma quinzena de anos, pareciam tão originais e (cof) ousados; coisas que pareciam tão futuristas, mas que, hoje, se perderam numa neblina de não acontecimentos que se emolduram perfeitamente na escala de cinza de alguns de meus atuais quadros cotidianos. Algo como se meus planos fossem uma maquete da Casa Modernista, hoje, nas mãos de um arquiteto apenas ligeiramente animado, mas não maravilhado. Talvez isso defina bem meu sentimento atual em relação à passagem dos meus dias.

A Casa, edificada, é um deslumbre sob a perspectiva na qual foi concebida. É possível visitá-la, revisitá-la, pensá-la, repensá-la; reformá-la, desconstruí-la. Os sonhos podem ser desadormecidos a qualquer instante, e sempre terão as melhores cores que o hoje puder oferecer (e se puder). Mas serão sempre um protótipo, nunca uma construção dentro da qual se possa, inclusive, sonhar.