quinta-feira, 10 de abril de 2014

O caso do antúrio.

Ouço o barulho intermitente das sirenes. Se olho pela janela sentada à mesa da cozinha, onde costumo trabalhar, vejo apenas os prédios imóveis e as nuvens que caminham aos poucos pelo céu; se levanto e caminho até a janela, vejo os automóveis e as pessoas se deslocando pela rua em que moro e ao longo da Abraão de Moraes. 

Há momentos em que periquitos, pardais e rolhinhas aportam na lavanderia, de modo que, além de ouvir a cantoria que se estende por todo o dia, também posso vê-los.

Assim seguem os dias, tudo conforme o planejado. E outro plano, parece, está prestes a dar certo. Talvez outro também, logo mais. Seria o espetáculo do crescimento do sucesso, ou algo idiota do gênero. 

Não estou bem há quase uma semana, como se meu espírito tivesse sido dementado e o corpo andasse por aí cumprindo metas, planos e clichês. Faltei à aula em outra cidade, tive a companhia silenciosa de um amigo querido por uns dias, fiz bolos que me deixam feliz, não corri a semana inteira, dormi até mais tarde, peguei trabalhos legais. Eu já deveria estar bem.

Acordo, tomo o café da manhã e desço para pegar a encomenda com o carteiro. Ao subir, olho para as plantas em frente à porta do apartamento e vejo que o antúrio está quase todo morto. A verdade é que não tenho cuidado delas nos últimos dias. Tenho tido coisas mais importantes com que me preocupar, embora eu não saiba bem dizer o que são essas coisas. 

Acho que o antúrio não gostou da lágrima de cristo, que trouxemos e colocamos entre ele e a clúsia. Então eu o coloco para dentro, talvez ele goste de ficar na sala. Abro a janela, sento no chão ao lado dele e começo a podá-lo. Sobram apenas quatro folhas. Limpo uma a uma, rego, aplico fertilizante, peço a ele que fique comigo. Por algum motivo não muito claro, eu não suportaria ver esse antúrio morrer. A possibilidade me deixa péssima. É o que digo a ele.

Olho para minhas mãos sujas de terra e elas estão descascando por completo, o que sempre acontece comigo quando alguma coisa não vai bem. Mas eu não sei exatamente o que não vai bem. Talvez eu tenha dado muita atenção aos meus planos e esquecido de mim. Como esqueci do antúrio. Talvez seja só eu sendo eu mesma, sofrendo de uma melancolia secreta que eu nunca vou saber explicar. Mesmo quando tudo vai aparentemente bem.