terça-feira, 22 de abril de 2014

Estes edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica.

Vista da janela. São Paulo, 22.4.2014. 

"Buenos Aires cresce descontrolada e imperfeita. É uma cidade superpovoada em um país deserto, uma cidade em que se erguem milhares e milhares e milhares e milhares de edifícios sem nenhum critério. Ao lado de um muito alto, existe um muito baixo; ao lado de um racionalista, um irracional; ao lado de um de estilo francês, há outro sem estilo algum. Provavelmente essas irregularidades nos refletem perfeitamente, irregularidades estéticas e éticas.

Estes edifícios que se sucedem sem nenhuma lógica demonstram uma total falta de planejamento. Exatamente igual à nossa vida: vamos vivendo sem ter a mínima ideia de como queremos ser. Vivemos como se estivéssemos de passagem por Buenos Aires. 

Somos os inventores da cultura do inquilino. Os edifícios são cada vez menores, para dar lugar a novos edifícios, menores ainda. Os apartamentos se dividem em ambientes, e vão desde os excepcionais cinco ambientes com varanda, sala de jogos, dependência de empregados, depósito até a quitinete, ou caixa de sapatos.

Os edifícios, como quase todas as coisas pensadas pelo homem, são feitos para nos diferenciar uns dos outros. Existe uma fachada frontal e posterior, e os pavimentos baixos e os altos. Os privilegiados são identificados com a letra A, excepcionalmente a B - quanto mais avança o alfabeto, menos categoria tem o apartamento. As vistas e a luminosidade são promessas que raramente condizem com a realidade. O que se pode esperar de uma cidade que vira as costas para o seu rio?

Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a abulia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e empresários da construção. Desses males, exceto o suicídio, eu padeço de todos."

Introdução do filme Medianeras (2011), de Gustavo Taretto.