sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Próximo ano novo.

Estes dias tão quentes trazem um bafo de desânimo que me faz repensar o que é ter energia. Uns meses atrás, na verdade há mais de um ano (quando estive bem fraca, mas não por causa do calor), ouvi que eu precisava ter mais energia, não podia me deixar abater. Lembro ter respondido que ficar desse jeito por quanto tempo eu achasse necessário não era ruim, nem mesmo bom; é só o meu jeito de existir mesmo.

Lido com altos e baixos muito bem. Eu me reconheço quando estou feliz, eu me reconheço quando estou triste. Também me reconheço quando estou entusiasmada e me reconheço quando estou indiferente. 

Viajei por cinco cidades de diferentes países europeus do mês passado para cá, com direito a alguns dias sob o sol de Paraty na chegada, e isso me deixou feliz. Viajar me deixa feliz: sentar em um banco de parque em dias gelados ou quentes, ver pessoas circulando pelas feiras, escutar conversas em outras culturas, observar como as pessoas se relacionam ou não com as outras, sentir o desconforto de se articular em lugares diferentes, sentir o peso da história nas cidades; olhar para paisagem nenhuma, perdendo minutos a fio mirando um céu que não me diz nada, porque talvez, no final das contas, nada tenha nada mesmo a dizer, nem a mostrar; isso de sentir as coisas sem precisar entender, sem racionalizar, sem perder tempo me ocupando das coisas que deveriam ser feitas ou que deveriam fazer sentido. Toda viagem, ainda que para uma cidade a 30 km de distância, sempre altera minha percepção, são os momentos em que sinto minha coluna espichando na escala evolutiva ou algo do tipo.

Este ano realizei e consegui muitas coisas que me deixaram feliz por um bom bocado. É bem possível que ano que vem nada disso faça sentido, e que tudo o que me deixou feliz este ano se torne só uma poeira colorida na minha memória. Pode ser que eu não tenha um ano bom, e que eu sinta que tomei, mais uma vez, o rumo errado. Na verdade, tenho a constante impressão de que tomei o rumo errado, e que isso é o melhor que poderia me acontecer, porque não sei lidar com nenhum tipo de estabilidade. Não sei lidar com muita felicidade, nem com muita tristeza. Talvez ser privada a maior parte do tempo das coisas que eu gostaria de ter seja a melhor forma de me manter buscando algum sentimento pelas coisas e pelas pessoas. Nos bancos de parque, nas feiras, observando as pessoas, mirando um céu que não tem nada a me dizer.

Minha avó, muito simples e carinhosa, costumava desejar um próximo ano novo nos cartões natalinos que enviava do Piauí para mim, aqui em São Paulo, quando viva. Ano após ano, infalivelmente, esses cartões enfeitavam a árvore de natal da casa dos meus pais, e eu costumava sorrir feliz. Nunca a corrigi porque não se corrigem os sentimentos. E porque talvez ela não soubesse, mas um próximo ano novo é a melhor coisa que se pode desejar a alguém. Com energia ou sem.