domingo, 5 de maio de 2013

Violência limpinha.

Acompanhei a história de um roubo: a mulher, indignada, disse que estava na rua com o celular nas mãos quando um menino a surpreendeu por trás, habilmente retirou o aparelho e saiu correndo a toda velocidade. Ouvi termos como sensação de vulnerabilidade e outros tantos que se aplicam, e o relato poderia ter sido a respeito de mais um entre tantos incidentes envolvendo roubos e violência, mas o discurso revelou uma visão social muito peculiar - e cada vez mais comum: do ponto de vista da mulher, a violência, basicamente, é reflexo da "falta do que fazer da juventude" e da "falta de policiamento nas ruas". O discurso indignado e exaltado repetiu infinitas vezes que as pessoas não querem mais trabalhar, por isso tanta pobreza e violência, e que a falta de policiais nas esquinas tem sido a conivência fundamental para a falta de limites dessa apontada horda de vagabundos. A mulher a quem me refiro possui graduação e morou em outros países, na América do Norte e na Europa. Diz que não há comparação, que a violência aqui é muito mais brutal e que não se pode tolerar ter o celular assaltado nas ruas. Em algum momento eu a ouvi dizer que é admissível lidar com crimes de lavagem de dinheiro ou desvio de verbas públicos, porque não são crimes violentos e não atemorizam a população, não tiram vidas. E foi a partir dessa frase que me perguntei onde foi que a sociedade atual começou a falhar em sua integral falta de consciência.

Dias destes, o diretor artístico do grupo TAPA, Eduardo Tolentino, disse em entrevista que o teatro feito atualmente é reflexo do baixo nível de educação do brasileiro. O ponto de vista dele é de que o acesso ao ensino foi massificado em detrimento da qualidade, o que geraria mais manifestações culturais, sem que essas, no entanto, partam de um pensamento mais desenvolvido, já que o índice de desenvolvimento humano é muito baixo. Eu concordo bastante com essa opinião, e em sentido bastante amplo. 

Vivenciamos um momento em que há políticas sociais, extremamente necessárias, que beneficiam - ou, antes, minimamente integram - camadas excluídas do processo social educacional e financeiro. É o caso das bolsas sociais e das cotas universitárias. O fato é que não consigo ver sustentabilidade nesses benefícios porque os vejo como políticas de ponta de iceberg: é como se após jogar um bebê nas ruas e surrá-lo ao longo de toda a vida fosse dado a ele, já adulto, um pratinho com 3 ou 4 brigadeiros das sobras de um banquete. O grande problema das políticas sociais atuais é que não se voltam para a base do problema. Desde o início estão focadas na emergência, sem programar e implantar políticas que as evitem. O número de escolas não tem sido ampliado em volume que supere não só o crescimento populacional mas também o contingente humano deixado à margem nesse processo; o número de hospitais não têm atendido às premissas mínimas de necessidade humana; os impostos, taxas, tarifas e juros são cada vez mais acachapantes. Educa-se mal, qualifica-se mal, cuida-se mal. O volume de impostos aos quais somos submetidos é absurdamente  desumano: gera uma massa de miseráveis cada dia mais robusta - basta observar o aumento estratosférico do número de moradores de ruas em São Paulo para suspeitar dessa questão. Com impostos cada vez mais canibalizadores, cria-se uma faixa de choque da qual os mais ricos são catapultados à condição de milionários e os mais pobres, à condição de miseráveis. Mais mendigos nas ruas, mais milionários sobrevoando os céus de helicóptero.

O consumo é uma grande chave: enquanto criam-se condições de crédito para a formação de uma ilusória classe média cujo dinheiro está sendo sugado por impostos e tributos descontados de um salário defasado e mutilador, o poder de compra aumenta à base de um dinheiro inexistente e abstrato, criando um conformismo massificado com relação à imensa miséria em que vivemos. A não formação de uma base tecnológica - proveniente de falta de cultura e educação - é uma miséria sem cura, porque não se cria a consciência e o capital humano para que os problemas sejam compreendidos e combatidos. Mesmo sob a ótica do consumo como fim, vivemos numa miséria tão extrema em que não somos capazes sequer de produzir aquilo que consumimos. O consumo compulsório atual, portanto, é criminoso com louvor: a preços cada vez menos condizentes com aquilo que compramos, financiamos dia após dia a menor possibilidade de acesso a artigos básicos de uma população carente. Quando compro artigos da cesta básica sem me importar com a alta de 30% desse produto, impossibilito em definitivo que aquele que ganha 1/3 de salário mínimo possa consumi-lo. Eu o jogo nas ruas ao aceitar, por meio de minha ignorância e falta de educação social, que somos taxados de forma cruel. Tiro a oportunidade de compra de um imóvel de uma família simples ao comprar um apartamento por meio milhão de reais, a juros não aplicáveis nas políticas humanas, não aplicáveis aos minúsculos metros quadrados aos quais terei de me confinar. Eu sustento cifras que não se aplicam à sociedade, financio a desigualdade. Consome-se de forma incorreta porque se é burro, sem cultura, sem consciência social. Amplamente ignorante em achar que se tem um privilégio ao conseguir se submeter a uma situação em que se está sendo lesado.

Acha-se, de modo geral, ridícula a ideia de mudar o mundo, como se fosse um pensamento atribuído a uma cambada de punheteiros viciados que reproduzem músicas dos anos 1970 em rodinhas de violão. Rendidos à infinitude que o termo "mudar o mundo" gera, avalia-se que o melhor que podemos fazer é não agredir ninguém nas ruas. Até se pode desviar um dinheiro público aqui ou ali, como disse a mulher; só não posso machucar ninguém, tomar um celular caro e superinflacionado das mãos pintadas de ninguém. Pode-se saber da violência e ela pode existir em profusão, desde que não interfira em nossas rotinas assim, à queima-roupa. 

Deixar de comprar tomate em vez de fazer um escarcéu para, contrariado, sair com um saquinho com 2 ou 3 frutos do mercado é uma ação válida. Recusar-se a votar em candidatos que não considerem o aumento de PIB destinado à educação é uma ação válida. Não votar em candidatos que desviaram verbas públicas, gerando a morte de milhares de pessoas vulneráveis em filas de hospitais, é uma ação válida. Consumir a preço justo é uma ação absurdamente válida, pois isso amplia o acesso a bens de consumo indispensáveis, altera a noção de consumo social e potencializa minimamente os mirrados rendimentos aos quais a esmagadora maioria tem acesso.

Ceder à facilidade de se sentir diferenciado por ter acesso a produtos que a maioria da população não tem é ceder à educação e à cultura que as classes mais abastadas não percebem não ter. Os produtos mais caros não o são, de forma geral, por representarem um salto de qualidade, e sim por representarem um ideal de status. "Sou o que posso consumir, e você não é se não pode consumir." A questão não é deixar de consumir, isso seria obviamente ilusório, mas sim consumir o que é necessário a preço justo, diminuindo o abismo social e a intolerância e a aversão que esse abismo gera entre os lados.

Trata-se de um raciocínio difícil. Exige ação e exige se assumir como criminoso que precisa reparar suas mazelas diante da sociedade que se está agredindo. 

Infelizmente, há um sem-número de pessoas acreditando que a solução está apenas na vigilância estreita e na punição severa (mais políticas de ponta de iceberg), tirando das costas um crime do qual participa cotidianamente. Há miséria, intolerância e barbárie em profusão cortando o pescoço de cada um como resposta à violência limpinha que cada um gera enquanto escolhe o último modelo de celular.