terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nunca saberemos.


Há essas pessoas assim, com quem falo pouco ou nunca falei, para quem não telefono ou sequer tenho o número; pessoas que vejo sempre, nunca vejo ou vejo muito pouco e, às vezes, mal conheço. Travo com elas relações esquizofrênicas, diria talvez a psicanalista, se ainda nos víssemos e se ela ainda articulasse com segurança conceitos estabanados de um jeito leviano e profissional. Ela diria e eu ouviria com grata desconfiança, se ela agora não estivesse numa dessas relações que só podem ser relações nesse não lugar.

São pessoas, essas das relações secretas, com quem converso mentalmente, xingo com frequência, gargalho até soluçar, torço por pequenas felicidades ou, às vezes, por pequenas tragédias; travamos disputas imaginárias, planos mirabolantes, bebemos juntos todas as cervejas e vinhos do mundo, conversamos sobre coisas que só fazem sentido para nós. 

Essas pessoas, todas elas, têm opiniões sobre o livro que li, o bolo que preparei em banho-maria, o texto que escrevi, a planta que plantei, a roupa que vesti, o corte novo de cabelo, a viagem que fiz, minhas variações de peso; sobre minha visão política, minha preferência musical, meu jeito de rir e de chorar à toa; meu jeito de ficar sozinha no meio da multidão com conforto. Eu, por minha vez, tenho lá minhas tantas opiniões sobre elas. 

Pouco importa o que elas pensam, e se pensam, e o que eu penso, mas sempre pensamos, e eu penso nisso tudo como se importasse. E talvez até importe mesmo.

É bem provável que tivéssemos tardes incríveis falando sobre tudo isso, se nossa relação fosse daquelas em que é preciso ter tardes incríveis falando sobre as coisas que realmente importam. Ou que não têm importância alguma.

Nem todo relacionamento pode ser palavra, eu diria a eles, se fôssemos de dizer coisas uns aos outros. Mas não somos disso nem para isso, por isso eles nunca saberão. E eu nunca saberei deles.