terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Bullying terceirizado em nível extremo.

Estudei até a 4ª série em escola pública. Lá, basicamente, eu era uma pequena bárbara: socando os meninos, arrumando confusão com as meninas e vivendo terrivelmente estropiada, feliz e cheia de amigos. As discussões duravam uns 3 ou 4 minutos, depois estava todo mundo ali no canto da quadra, dividindo lanche e planejando a próxima farra. Por conta das boas notas, os professores costumavam ser compreensivos, mas, quando me desciam o relho, eu achava muito justo. 
Da 5ª série em diante, fui para uma escola particular, administrada por padres, freiras e cheia de câmeras e grades, na qual fiquei até o final do colegial. Lá as meninas eram educadas, não havia briga ou discussão. As mais bonitinhas que tinham algo contra outra menina tratavam de terceirizar sua fúria para algum palerma apaixonado, e costumava funcionar: a "rival" passava a se tornar alvo dos meninos, responsáveis pelo serviço sujo. Hoje chamam de bullying; antes, era só uma maneira de organizar os estratos estudantis. 
Fui uma criatura perdida até o colegial: não fiz nenhuma amizade sólida, não sabia me comunicar do jeito estéril como a rapaziada se comunicava, frequentemente preferia estar só onde não pudesse ser vista e mal conseguia me concentrar nas aulas. Só pensava em quando aquilo tudo acabaria. No segundo colegial, comecei a jogar vôlei e encontrei minha turma. Fiz amizades bacanas, encontrei joias raras com as quais podia trocar sopapos e, dali a 5 minutos, chamar para comer uma coxinha na cantina, sem o menor ressentimento, e madrugava superfeliz para ir à escola. Mas daí veio a faculdade e ferrou tudo de novo: gente que te deixa circular com as calças rasgadas para ir ao banheiro comentar com outro, muito discretamente, o ridículo de sua situação. (Não é que eu me relacionasse pouco: o fato de jogar vôlei pela atlética da faculdade me rendia companhia constante; a questão era a superficialidade das relações. Poucos fugiram desse padrão, e foi desses poucos de quem me tornei amiga.)  
Observando tudo isso, vejo que, de alguma maneira, a existência em S. Paulo caminha para a esterilidade. Nunca me considerei uma pessoa bruta ou agressiva, pelo contrário, mas não me é permitido sequer trocar sopapos com amigos que estão de sacanagem ou com o cara que me passou a perna no troco, o que seria natural e nada agressivo. É preciso manter as aparências, a educação, a decência. O que eu chamaria de franqueza evolutiva, amizade ou senso de justiça, chamam por aí de brutalidade, e não me é permitido existir se não me adequando ao modelo implícito (tudo aqui é implícito).
Hoje, para mim, é como se a cidade fosse uma metonímia da menina que terceiriza o bullying, mas em nível extremo: manda-se matar, mas ninguém tem nenhum problema com ninguém, nenhuma situação é incômoda, está tudo sempre muito bem e não há problema em nada, desde que não se toque no assunto. E eu sobrevivo caçando com lupa alguém que venha se pegar na unha comigo e depois rir de alguma coisa que só faça sentido pelas leis da amizade.