segunda-feira, 12 de setembro de 2011

72.


O menino de cabelo tigela empina a sacola de supermercado pelas grades da varanda, enquanto tantas outras crianças correm pelo playground; a vizinha das trinta gaiolas de passarinho ouve Serge Gainsbourg e eu vislumbro o terror; o menino do bloco ao lado responde não brinca? ao grito de aí, seu gordo!; a faxineira corpulenta se debruça sobre o porteiro raquítico; a senhorinha oriental diz que não sabe a origem do barulho infernal que vem de seu apartamento martelar as minhas têmporas. 
O varal da lavanderia quebra, o amaciante novo é ruim, umas tantas goteiras surgem no batente, uma fileira de formigas minúsculas na pia impecavelmente limpa me faz desistir de bater um bolo, Dupont (ou Dupond?) adquire uma misteriosa rosácea, a impressora emperra, o chuveiro esquenta mais do que o necessário, o telefone não funciona em parte nenhuma, o céu é um borrão cinza, as pilhas de cópias a serem lidas se acumulam, penso em dedicar a vida a jogar god of war, o verbete que procuro jamais foi dito, a tela do computador me dá náuseas, o pagamento daquela editora é só daqui a 45 dias (com sorte), o condomínio aumenta, penso em não pagar as contas e fugir com a grana para o Uruguai, o estado de minhas unhas é lamentável, cogito com vergonha e entusiasmo comprar um vídeo com aulas de pilates, as opções de toque de celular me deprimem. 
Preciso ligar para M., para D. e pedir para A. não vir na sexta; preciso jogar fora os sachês de chá vencidos, produzir textos, fazer leituras, encaminhar traduções, receber encomendas; preciso lavar os cabelos, cuidar dos pés, marcar a dermatologista, ser uma mulher charmosa, ter senso de humor, esperar de braços abertos, oferecer chazinho, comentar sobre as novidades do esporte, da economia e do mundo das celebridades; preciso deixar para amanhã tudo o que deveria ter feito ontem. 
E a única coisa visível é a porta fechada e silenciosa de nº 72.