quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Eu te perdoo por tudo, Jorge Vercilo.

2016 foi um ano complicado: o mundo está uma poça de chorume espesso, o futuro parece tenebroso e as pessoas estão insanas, radicais, sem a mínima tolerância com a opinião alheia e confundindo atitudes racistas, misóginas e xenófobas com ~posicionamentos progressistas. O conservadorismo está aí se reinstalando de forma tão avassaladora que até minha bisavó ficaria chocada. Mas à parte esse imenso e triste mundo externo, à parte essas pessoas ruins (apud IMPERADOR, Adriano), à parte esse ar podre que tratamos de estragar um tantinho mais a cada dia, eu tive um ano bom. Não um ano fácil; um ano bom, com novos planos e perspectivas, uma visão mais simples sobre o cotidiano e com a expectativa da chegada de uma vida nova que em breve roubará minhas noites de sono e meu coração. Acho que estou feliz, bastante. Ser feliz é bom, mas traz transtornos: não traz ideias brilhantes, não faz construir uma Enigma ou escrever poesia como e.e. cummings ou Sylvia Plath. Ser feliz traz rima infame e vontade de sair correndo descalço na areia com uma bata branca com estampa de girassol, garrafa de espumante nas mãos, sentindo o sol bater nos cabelos cor de mel, um doce mistério de rio. E é sabendo disso que eu finalmente te perdoo por tudo, Jorge Vercilo. Tamo junto.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Veste tua zorba furada e vem escorregar no tobogã farpado onde estamos lindamente a brincar.

Se todo mundo ao seu redor lhe parece estúpido, incapaz, parvo, limitado, equivocado, abobalhado, imbecil, irracional, tacanho, incompetente, bocó, ignorante, palerma, goiaba, desgovernado, obtuso, cansativo, enfadonho, energúmeno, senil, boçal, maçante, tapado -com exceções ora ~polêmicas, as quais só você julga entender, ora sublimes, às quais em sua cabeça delirante você se equipara-, e você brada virulentamente essa certeza aos quatro ventos em grande parte das suas manifestações e interações ~sociais, atenção: sua capacidade de autocrítica provavelmente está vivenciando os suspiros finais, e isso se revela no seu discurso de forma tão discreta quanto o anúncio do carro da pamonha. 

Você é esse vômito obscurecedor, tira essa marra e baila no teu regurgito. Henry Miller está morto, fera, vive a tua vida.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Felicidade é voto de pobreza.

Tem sido difícil tocar o script burocrático e prático dos dias enquanto a vida me puxa pelo braço para ir a uma praia paradisíaca pular no mar e beber uns drinques. Estar feliz parece interferir colossalmente no andamento padrão da vida, porque via de regra estou sempre conformada em não ser assim tão feliz, e isso garante que boa parte de toda a energia produzida pelo meu corpo -quando é produzida- seja direcionada a coisas que, na real, não têm lá grande relevância emocional. Mas como proceder quando alguma coisa de fato relevante exige total atenção e energia? Mandar um "olha, fera, foi mal não entregar o serviço, mas não deu mesmo, serião, precisei passar o dia curtindo o ilê e o charme da liberdade" talvez não seja boa ideia. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Movimentos.

- Vejo as duas sacolas grandes ali ao lado do guarda-roupa, à espera do transporte para doação, e sinto alívio. Pensando no misterioso fato de sempre ter muitas coisas para doar -roupas, livros, objetos etc.- ainda que raramente compre alguma coisa, cheguei à conclusão de que muito do que tenho vem de fora: família, amigos, conhecidos. Gosto da afetividade, dos pequenos gestos, mas gosto ainda mais da liberdade de manter comigo só aquilo com que eu quero ficar. Posse não tem nada a ver com gesto; desprezo aquele quando sem função prática, aprecio este quando desapegado de vaidade. A fixação de um afeto é líquida e circula pela memória, não por escombros. 

- Às voltas com os mortos, físicos e metafísicos, tenho lidado com o desconforto do vazio. É preciso verificar o que de fértil e sólido resta de um solo implodido diante dos olhos. Talvez eu esteja aprendendo a frequentar os funerais, a sujar o tênis na terra falsamente paradisíaca dos cemitérios para me contaminar dos germes que chacoalharão comigo pelas horas que se seguirem e chorar as lágrimas pelos mortos, todos os mortos, que talvez já estivessem mortos mas cujos corpos eu insistia em carregar sobre os ombros. 

- Há esses eventos que tornam as coisas pequenas ainda menores. As vindas que afirmam as idas, que rejeitam o supérfluo, que colocam o que é instável à prova, que dão firmeza e precisão às palavras que precisam emergir. Não há nada que exista sem movimento; o movimento que finalmente cede espaço ao que não tinha lugar e precisava ter, o movimento que higieniza o que está empoeirado e rinítico, o movimento que anistia o que se fixou por falta de vigor, o movimento que desloca as associações baseadas em ego, conveniência ou resiliência. Gosto do que vai, gosto do que fica; são complementares.

- Nada se compara à realidade, e os anos têm me convencido disso. Há muita feiura na passagem dos dias, na observação e no contato com o outro, nos mecanismos do cotidiano, mas nisso está o valor dos pequenos episódios de beleza. A realidade só pode ser admissível pela expectativa do raro, e o raro só se faz ver pelo movimento.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

sdds silêncio

Um bom desafio comunicativo seria propor que numa conversa não sejam utilizadas, sob hipótese nenhuma, as palavras "esquerdopata", "comunista", "petralha", "reaça", "nazi" e "coxinha". Talvez as pessoas não conseguissem se comunicar. Talvez as pessoas ficassem em silêncio. Ah, eu gosto tanto do silêncio! <3

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Freud entediadão.

Tenho dificuldade de interagir em grupos formados por pessoas que têm esse jeito ~contemporâneo de se comunicar: o sujeito espera desesperadamente uma brecha para falar de si e das coisas mui singulares que viveu, ignorando por completo o fato de haver outros seres vivos ao redor. Ninguém se ouve, ninguém conversa, os temas não se cruzam: as pessoas apenas falam. Ao que parece, a maioria dos interlocutores poderia facilmente ser substituída por um display do Freud entediadão ou da Marina Abramovic. Os relacionamentos não envolvem mais curiosidade e empatia pelo próximo, se parecem mais com aqueles game show em que quem aperta o botão primeiro tem o direito de falar, restando aos demais se contentarem com uma torta na cara. 

[Talvez eu esteja ficando velha e ranzinza demais.]

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Onde eu sei morar.

- Talvez seja mesmo preciso ressuscitar algumas coisas para deixá-las ir embora de vez. É o que mais tenho feito nas últimas semanas: estou cercada de mortos.

- Tenho passado os dias pensando em como ter uma relação harmoniosa com o meu corpo. Aparentemente, ter radicalizado na vida saudável ano passado (muita atividade física, alimentação orgânica e saudável, nada de açúcar, nada de gorduranada artificial) só me trouxe, literalmente, dor e sofrimento - além de uma internação hospitalar. Retomando certa bagaceira way of life, aos poucos vou encontrando algum equilíbrio e, a esta altura de 2016, talvez se desenhe no horizonte um jeito de conviver bem com meus combalidos órgãos.

- Gostaria de ter apenas uma atividade principal por dia e ter a liberdade de decidir o que fazer no tempo restante, mas, por algum motivo misterioso, quando me dou conta estou soterrada de compromissos a cumprir.

- Estudar literatura tem me soado um contrassenso inadmissível. Nunca li tão pouco por lazer como nos últimos anos. A vida se torna uma angústia em torno de teorias, compromissos e atividades acadêmicas que estraçalham qualquer possibilidade de puxar um livro da estante e ler com prazer. Escrever ficção -algo que faço desde adolescente por diversão- tem se tornado impossível. [É nisso tudo em que costumo pensar alguns segundos antes de fazer matrícula.]

- Nunca desconfiei tanto das pessoas como agora. Aparentemente tudo virou uma grande cilada, Bino.

- As pessoas ainda perdem tempo defendendo com os dentes seus políticos/partidos de estimação enquanto o número de moradores de rua aumenta de forma assustadoramente avassaladora. 

- Vivendo alguns dias em Lençóis, na Chapada Diamantina, percebi que não preciso sair do país para me sentir estrangeira, mas de outro jeito. Lá tive a sensação de estar muito confortavelmente morando em uma casa à qual eu não pertenço, mas adoraria pertencer. Pensei -muitas vezes, e muito seriamente- em me mudar para lá, dar aulas no grupo escolar para o João e a Fernanda, almoçar cortado de palma todo dia n'O Bode -que eu chamaria de Bode Grill-, passar a tarde comendo uns biscoitinhos Joaquim Teodoro recém-saídos do forno com a Geisa e circular pela Rua das Pedras cumprimentando os comerciantes todo fim de tarde num looping infinito até eu me tornar a pessoa que poderia chamar um lugar como aquele de casa: a pessoa que não tem pressa, que está integrada à natureza, que se conecta com a terra, que pula na cachoeira cheia de intimidade com as pedras em que os turistas se estabacam, que não tem alergias alimentares, que conhece as pessoas por nome e endereço, que precisa de muito pouco para viver, que diz "pronto" com propriedade, que acha que o único forró possível é o de raiz. 

- São Paulo, eu sei, é a casa barulhenta com roupa suja espalhada e macarrão à bolonhesa quentinho onde eu sei morar.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Débora.

A gente se conheceu em 1997 dentro do ônibus, uniformes iguais. Você estava no ginásio; eu, no colegial. Logo descobrimos que tínhamos muito em comum: morávamos no mesmo bairro, éramos viciadas em vôlei e achávamos os garotos do bairro uns tapados. Nos dias de aula, enquanto eu me espremia pelos corredores do colégio na tentativa de matar aula com as amigas e fugir da bedel de cabelo acaju e corpo mirrado, eu sempre passava na frente da sua sala para acenar e te mandar beijos. O seu relacionamento com a mãe não era bom, nem o meu com a minha, seu pai era um babaca alcoólatra e ausente, a gente não tinha muito pra onde ir - pais no pé, pouca grana. Na vila, o projeto de vida das garotas era casar e encher a casa de filhos com os quais iriam para a igreja todos os dias; no colégio, em outra cidade, mas tão provinciana quanto nosso bairro, o anseio da rapaziada era ir todo fim de semana às matinês de Pinheiros e beijar o maior número de bocas possível. A gente não queria nada disso, mas também não sabia o que querer. Talvez só mesmo vôlei, o rock que tocava na 89 e as noites de fim de semana na calçada falando bobagem com os meninos do bairro que também gostavam de vôlei e do rock que tocava na 89. Você levou a doçura a um extremo jamais visto, adoçando o leite com toddy, encharcando a pipoca com açúcar e anilina, fazendo estoques de chocolate e jujubas. Com você aprendi que o sabonete de enxofre era ótimo para espinhas e que o perfume maravilhoso que ficava nas roupas que eu te emprestava se chamava Kriska. Eu não conseguia te acompanhar nas corridas: você ali, deusa Nice, de caneleiras e rímel, rindo da minha cara por eu não aguentar chegar sequer até o pedágio. O seu sorriso era tão incrível que era impossível eu querer deixar de fazer graça quando a gente estava junta. Passávamos as tardes cantando errado as músicas do Offspring, esboçando planos para um futuro que teríamos em comum. No dia de prestar vestibular você estava ali comigo, me esperando na saída pra saber como eu tinha ido na prova - eu disse que provavelmente um lixo, você deu de ombros e a gente foi comer uns croissants de chocolate numa padaria ali perto. A cada decepção amorosa, vibe depressiva e frustração ali estava o colo uma da outra. Nunca caímos enquanto estávamos juntas. Mesmo com tanto afeto nos distanciamos: você foi aprovada num concurso e foi morar em outra cidade, na qual também começou a fazer faculdade, curiosamente o mesmo lugar onde agora faço mestrado e onde nos reencontramos no ano passado, após eu receber, muito feliz, uma mensagem sua. Nos vimos outra vez, trocamos muitas mensagens, telefonemas. Você me contou tudo: eu soube da morte da sua mãe, da mudança de estado de sua única irmã, da tentativa frustrada de aproximação com o pai, dos relacionamentos que não deram pé, do emprego corrosivo, da solidão, dos vícios, da solidão, das internações, da solidão, da vontade de desistir de tudo, da solidão, dos tratamentos, da solidão. Te chamei pra vir pra perto de mim, insisti pra largar tudo naquela cidade tóxica. Fiz tanto por telefone, por whatsapp, por telepatia e por onde mais minha comodidade permitiu fazer. Por vezes você sumia, preferia não falar, e eu daqui tocava a vida sem entender a ação que tudo o que você compartilhava comigo exigia. Desta vez você sumiu por muito tempo, e meu coração ficou aflito, pesado. Quando enxerguei o que precisava ser feito era tarde demais, irreparavelmente tarde demais. Agora só o que ficou foi uma dor que não tem tamanho dentro de mim, uma dor que finalmente extrapolou o virtual em que eu nos coloquei depois de a gente existir junta por tanto tempo. Você trouxe sua dor e eu a coloquei nas limitações da minha zona de conforto. Eu te peço perdão, amiga. Eu só queria ter estado aí pra te dizer que a gente vai dar um jeito em tudo isso. Desculpa por ter sido incapaz de te manter comigo, me perdoa por ter perdido você, Dedé.

9 de julho de 2015

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Pés suaves no chão.

Nós passaremos -passaremos, sim, todas nós, a passos apressados. Aprendemos a ser da nossa conta, e da-nossa-conta estamos, pernas trançadas, cambaleantes, atravessando cercas, pisando em cacos de vidro, cruzando becos escuros de libido sádica e praças ensolaradas de opressão patriarcal, com ventres e vaginas sangrantes, tubos de hirudoid espalhados pela casa, marcas de expressão de que o renew não dará conta nunca, não dará conta jamais. Para que elas depois de nós caminhem, pés suaves no chão, à luz da lua, à luz do sol.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Preguiça.

Uma das coisas mais incríveis de envelhecer é deixar a preguiça tomar conta. É deixar pra lá, cansar por antecedência, evitar a fadiga, receber o convite pra uma roubada e fechar os olhos por alguns segundos tendo a deliciosa visão de um não em fonte arial black tamanho 72. A preguiça que veio com meus trinta e poucos anos me ajudou a entender que há discussões que não valem a pena, frescuras e paranoias de conhecidos/amigos/familiares com as quais não tenho de lidar, chantagens emocionais que apenas soam cômicas, sem causarem em mim nenhum efeito. Guardo pouco, me apego a pouco, lido bem com o transitório. Vai quem tem que ir, fica quem tem que ficar, e tudo bem. Tudo isso é lindamente libertador, porque, meus pacovás, como as pessoas se empenham em tornar tudo pessoal, limitado e burocrático. A burocracia comportamental que o bródinho do virtual quer trazer para o real me enche de preguiça, me entedia. Existir seria um troço tão mais fácil se ninguém criasse regras abstratas e infantis de convívio baseadas no padrão "não curtiu minha foto nem me seguiu de volta então tomara que morra de lepra". 

Toda vez que alguém me toma por um alienígena sociopata ao saber que não tenho conta no facebook penso em responder isso tudo. Mas me dá uma maravilhosa preguiça do cacete.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Oscar dos horrores

O dia até que amanheceu bem bonito, enquanto seguimos perdidos e atordoados. O circo do impeachment de ontem foi um espetáculo triste, deplorável, vergonhoso. A representação de cada mínima treva humana está(ava) ali, na câmara, usando a tribuna para se dirigir à vovó, ao vovô, à esposa, aos filhinhos, a Deus e, na mesma toada, a torturadores e militares. Governa-se em razão de representação familiar, para conquistar um lugar no céu, para honrar ancestrais e ídolos oxidados. A população é de uma irrelevância assustadora.

Não acho que o pedido de impeachment da presidente Dilma seja golpe; acredito que existam desmandos econômicos e administrativos que justifiquem o impedimento, dentro do contexto de premissas que um presidente deve atender quando em exercício. O que, no entanto, me parece indiscutivelmente um golpe é a forma como o processo tem sido conduzido: a partir de uma vingança pessoal de Cunha - pela negativa da presidente em orientar seu partido a blindá-lo no conselho de ética contra as acusações às quais ele DEVE responder -, orquestrado em comunhão com o vice Michel Temer, a quem tamanho poder desenhado no horizonte jamais chegaria por voto popular e que vê nesta atual situação uma oportunidade única de ação, não poupando recursos e manobras.

É difícil tomar partido do PT, e não o faço há tempos. O partido rompeu há muito o compromisso com a esquerda, ao priorizar uma governabilidade que colocou no poder o que há de mais retrógrado e desumano na política brasileira, de modo que as medidas aprovadas representam não o eco de discursos passados do partido, mas sim o daqueles que foram empoderados e que agora salivam como cães loucos em busca de mais poder - um poder que a combalida presidenta não é mais capaz de oferecer.

Se por um lado, em eleições passadas, outros candidatos de esquerda foram ridicularizados pelo próprio PT ao anunciarem seus planos de governo, por supostamente estarem em desacordo com uma realidade de execução, por outro lado o PT instaurou uma governabilidade que tornou impossível a aprovação e execução de suas bandeiras históricas, e que ainda empoderou uma leva de políticos que deveria estar o mais longe possível de qualquer cargo público. Incluindo nessa leva o vice-presidente que agora conspira à espreita do comando do país. 

O Oscar dos horrores de ontem - no qual os políticos pareciam, antes, agradecer a entidades diversas pelo poder obtido, em vez de se deter com profundidade à situação a que estavam investidos de analisar - revelou quem são e o que pensam nossos deputados, um a um, alguns segundos para além da propaganda eleitoral obrigatória. A mim parece o suficiente para vislumbrar uma longa treva, infinda, da qual sairemos apenas quando tomarmos o processo eleitoral mais a fundo, com problematizações que ultrapassem a perspectiva do "menos pior".

Para além da pergunta futura que eu gostaria de ver respondida - o que será da esquerda no Brasil a partir dos embates políticos e dos governos dos anos 2000 -, fica também o imenso desconforto com este momento. Há, sabemos, uma importante situação administrativa a ser resolvida, mas a maioria esmagadora de nossos políticos, ao que se revelou ontem, pouco ou nenhum conhecimento/interesse tem a respeito. O desmando é absoluto, estamos à deriva. Como retomar o norte? O impeachment é realmente capaz de trazer alguma solução efetiva, que ultrapasse a barreira de uma breve e superficial trégua com o mercado, ou vai trazer apenas alguma movimentação política àqueles a quem se permitiu jogar?

Tenho muitas dúvidas, pouca esperança.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Tiro, porrada, bomba e meus fones de ouvido.

Se tira foto é exibicionista; se não gosta de foto é apático; se gosta do presente é superficial; se gosta do passado é saudosista; se mora com os pais é acomodado; se mora sozinho é encalhado; se é casado é careta; se é gay é porque faltou experiência; se é hétero é porque faltou experiência; se é velho é ranzinza; se é jovem é imaturo; se compartilha é exibicionista; se guarda pra si é egoísta; se tem carro é babaca; se tem bicicleta é babaca; se grita é louco; se fala é idealista de sofá; se bebe é fraco; se não bebe é fraco; se xinga é agressivo; se não xinga é passivo --

não pode ser magra, é escrava do padrão; não pode ser gorda, está fora do padrão; não pode ter casa, é elitista; não pode morar na rua, é vagabundo; não pode ser branco, é aristocrata; não pode ser negro, é vitimista; não pode ser homem, é opressor; não pode ser mulher, é vadia; não pode ser feminista, é histérica; não pode ser de esquerda, é lunático e burro; não pode ser de direita, é reaça e burro; não pode ter empatia, é hipócrita; não pode não estar nem aí, é alienado; não pode ser rico, é ladrão; não pode ser pobre, é preguiçoso; não pode dançar, tá fingindo ser feliz; não pode ficar parado, é esnobe; não pode ser patrão, é opressor; não pode ser empregado, é acomodado; não pode gostar de cultura estrangeira, é imperialista; não pode gostar da cultura nacional, é xenófobo; não pode comer hambúrguer, fica doente; não pode comer linhaça, é mala; não pode pular carnaval, é hype; não pode ficar em casa, é arrogante; não pode ver BBB, é fútil; não pode ver Wim Wenders, é pedante; não pode ficar feliz, é falso; não pode ser infeliz, é pose; não pode usar maquiagem, tá querendo; não pode ter cara limpa, é largada; não pode estudar pouco, não temos vaga pro seu perfil; não pode estudar muito, não temos vaga pro seu perfil; não pode reclamar, é chato; não pode ficar quieto, é sem opinião; 

não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode, não pode --

Viver tem sido ficar em pânico no meio da rua em meio a duas margens alagadas e intransponíveis. Hoje escolho, por tempo indeterminado, ficar ali na pista, desviando dos carros com meus fones de ouvido.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A beleza do aventureiro.

O explorador que se lança no mundo atado a balões, que se mete numa viagem pelas areias inóspitas do deserto, pela neve, pelas cavernas, por montanhas íngremes e escorregadias, que pouco se importa com o clamor ou o desdém agouroso de quem não foi, de quem morreu; esse explorador está vivo ao transcender o alvo, e é imortal bem quando avassaladoramente perene. Nessa pureza de apenas vislumbrar o propósito em si está a beleza do aventureiro, a única e verdadeira beleza que se pode tatear na escuridão. 

Sem a travessia, Henry Worsley, eu ou você, todos estamos feios e mortos, pouco importa a chegada.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Cara ou coroa.

Seu Eduardo tem 74 anos. Está na quinta sessão de fisioterapia da bacia, fraturada após escorregar numa casca de banana na feira. A esposa morreu em 1989, os filhos moram no Rio de Janeiro. Seu Eduardo, de olhos fundos e com uma melancólica e indefectível cara de bunda, sempre foi muito tímido, tendo permanecido solteiro após a morte da esposa e perdido anualmente os poucos amigos que conquistara durante os tempos de união com a amável e popular Dona Teresa. 

Seu Eduardo conhece poucos rostos de mulheres, por pouco contemplá-los, e é apenas à força das fotos que relembra o rosto da falecida esposa. Sabe-se também que Seu Eduardo deixou de emitir palavras reconhecíveis nos anos 1990, a última ocorrência concreta tendo sido um eita! em 1994 à ocasião do gol de Saeed Al-Owairan em partida contra a Bélgica na fase de grupos da Copa do Mundo.

É a quinta sessão de fisioterapia e lá está Seu Eduardo, de crocs bege, regata branca e bermuda estilo safari, tomando uns choques ali pelos glúteos, deitado de bruços, cara virada para o lado esquerdo, lado este em que estão a plena visão as partes de Juliana, uma adolescente de seus 16 anos, involuntariamente arrebitadinha, choquinhos nas costas, que percebe o olhar deliciado de Seu Eduardo em direção à vagina acurveada pela calça legging azul marinho. Indignada pelo despencar libidinoso dos lábios acolagenados, estala os dedos e lança um ei! trovejante na direção do velho descarado que, a esta altura, corre descalço em sunga de crochê pelas praias de Copacabana de mãos dadas com aquela buceta amorosa, aquela buceta metafísica, aquela buceta bronzeadinha a lançar a cabeleira pelos mares cariocas.

Quando volta para casa, o som que ecoa na casa de Seu Eduardo, com sua melancólica e indefectível cara de bunda, é o do silêncio. Mas a buceta, ah, a bucetinha!

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Vaza.

Até o semestre passado eu me sentia imune ao precoce e visionário coro vade retro 2015, entoado a boca larga pelas ruas, bares, prados e campinas. Mas hoje, ontologicamente apoplética e um tantinho descadeirada -na verdade, beirando uma vibe meio Elijah Price-, eu me uno à turba num só coração clamando por dias vindouros menos trabalhados na capirotagem cósmica de modo geral. 2016: vem já, vem de boa e não fode, kiridaum.