quinta-feira, 25 de abril de 2019

A mesa posta.

Como resultado do processo eleitoral e suas consequências desastrosas, tenho sentido um ouriçamento descomunal em relação às pessoas. Tenho a constante sensação de que, se alguém espirrar em um ambiente, todos ao redor virarão gremlins demoníacos. É difícil viver fazendo uma eterna análise do discurso em que frequentemente o interlocutor fere metade da humanidade ao longo do dia, mesmo sendo esse interlocutor adorável, mesmo sendo esse interlocutor engajado, mesmo sendo esse interlocutor atento. É possível estabelecer relações saudáveis quando se toma partido definitivo e inflexível sobre como as coisas devem minimamente ser? E: eu fui investida por quem pela capa de bastião dos valores sociais ideais para achar que sei como as coisas devem ser, ou como as coisas são, ou quando as coisas deixam de ser o que deveriam? 

Nunca desconheci tanto o outro e nunca duvidei tanto de mim mesma. Há um desajuste imenso entre todas as coisas na minha cabeça, entre todos os lugares na minha cabeça, e eu não sei mais quais coisas me pertencem, quais coisas reconheço, nem como me vestir, sorrir ou usar os talheres à mesa que está posta. 

Eu só queria voltar a gostar e rir mais livremente. Estou cansada.

Tornado.

Tenho me mantido focada em estar, politicamente, ao lado das práticas, não das teorias, mas quero apenas formalizar o desejo de que tudo isso, visível e invisível, que ronda o país de cima de um trono, desmorone. Que chegue ao fundo do tornado, roce o corpo na lama até perder a armadura e sinta todas as unhas dos dedos se quebrarem ao tentar subir, até, sem forças, estagnar nas trevas de onde nunca deveria ter saído. E que tudo que esteja próximo fique junto por lá.

[um texto de março, resgatado dos rascunhos.]

quarta-feira, 27 de março de 2019

"Odeio drama, mas faço" feat.: vida acadêmica

Entrei agora nessa de doutorado talvez meio que por plot twist - tenho lá meus trauminhas escolares -, talvez porque não há lá muita perspectiva de, sendo das Letras, ostentar muito mais coisas para a família e umas pessoas aí do que um diploma de doutora ou algo do gênero, talvez para o meu filho um dia digitar meu nome no google e encontrar alguma referência lá pela página 38769, talvez pela ilusão de estar fazendo algo relevante nossa-que-tema-legal-atual-artístico-sensível-engajado-esquerdinha-hypado, algo assim. Às vezes gostaria de conseguir assumir que me basta uma vidinha simples mesmo, lendo e escrevendo minhas coisinhas sem nenhuma pretensão, dividindo meus dias entre meu filho incrível, meu maridinho amado, minha família que passa o ano me presenteando com perfumes como se eu fosse Iemanjá num eterno 2 de fevereiro, meus amigos que me ouvem e amam como se eu fosse realmente digna de afeto e atenção, um empreguinho em que as pessoas me dão abraços e compram bolo no aniversário, uma aulinha de dança, natação ou violão. Não assumo por que mesmo? Choices, diria Tatianna.

Os anos passam e os livros que eu gostaria de ler se acumulam na estante porque tenho estado muito ocupada pensando em teorias (frágeis e ruins) que eu poderia escrever sobre eles, meio que uma metonímia do que estou fazendo com minha vida, minha sanidade e minhas células. Então eu só gostaria mesmo que alguém me amarrasse e me impedisse de tentar pertencer a lugares aos quais eu não quero de maneira alguma pertencer, mas aos quais quero sim nossa muito loucamente pertencer. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Eldorado.

Passei os últimos dias no hospital lidando com os estragos feitos pelo meu apêndice antes de ser extraído à força. Meu ex-apêndice, aliás: um sujeito casca-grossa sangrando pelo salão, que saiu sob vaias, ameaçando o gerente do bar com uma garrafa cortada. Nessas eu fiquei às voltas com certa ideia de morte trazida por uma infecção que se espalhou pelo abdômen, mas felizmente saí dessa - não sem a ajuda literalmente vital de pessoas que tenho a imensa felicidade de ter ao redor.

[Pessoas: lindas num momento em que as via todas feias, desfiguradas, sob suspeição. O animal homem também é ursinho.]

Dá certa ideia de responsabilidade redobrada e imediata impotência sair de uma situação limite, e não é lá muito fácil lidar com esse paradoxo. Mas o lance agora é não deixar por menos: tenho planos pequenininhos, que talvez pareçam mais retrocesso do que conquista para muitos, mas que para mim serão o novo Eldorado. Não haverá descanso enquanto eu não chegar lá.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Maneiras de enterrar os mortos.

É preciso lembrar tudo, cada detalhe. Uma frase que terminou antes de começar, a uva preferida, o hábito de insinuar a cena seguinte daquele filme que eu ainda não vi, a pantufa de tigrinho durante o expediente, ela dizendo que gostava de correr com a moto de farol quebrado, o arroz carreteiro, um jeito de me erguer com uma mão só, o pintinho morto no quintal da vizinha, os gatinhos no quarto dos fundos, o guidão da bicicleta, a repulsa, gargalhadas na sala. Os passarinhos que caíram da árvore no dia de chuva e foram para uma caixinha na garagem - as penas, os bicos, as patas -, uma briga de duas meninas (Alessandra não lembro o sobrenome e uma menina negra muito alta não lembro nome nem sobrenome) à beira do córrego, a Helena não lembro o sobrenome na janela do ônibus e ela lá fora me dizendo para mudar de lugar, o jogo de queimada, as ligações a cobrar sou a Bia, um poeminha de maiakóvski escrito num papel e entregue em mãos que significava um poema de maiakóvski escrito num papel e entregue em mãos, o corpo na pistinha da Anhanguera, o time b, o time dois, uma tarde para fazer pães?, a Vanessa do dente quebrado em uma briga na escola da qual foi expulsa, Vivian lembro o sobrenome me mandando mostrar os dentes, aquele oi amiga que saudade passa seu whats pra gente trocar uma palavrinha bjos, a internação, aquele dia no elevador em que ela me disse o que ele tinha - por que ninguém pode saber? -, Alemão, a sonda na boca, pac-man no computador, o sutiã bege que todas elas usavam, os testes da revista capricho, ela trancada no quintal com uma faca na mão, a pimenta do reino na colher, a água vermelha caindo dos olhos escorrendo farta no ladrilho do banheiro, ela é tão pequena eu pensei, o perfume quasar e uma jaqueta jeans, o band-aid no tênis ked's, cecília não lembro o sobrenome, ana não lembro o sobrenome, eliane não lembro o sobrenome, janaína não lembro o sobrenome, rondinelli não lembro o sobrenome, carla não lembro o sobrenome, fábio ridículo não lembro o sobrenome, a viagem de ônibus no jardim da infância e ele parecia bem ali naquela caixa naquele jardim - mas ele não vai levantar para brincar - as flores já não crescem maaaais até o alecrim murchoooou, o dinheiro que ela me deu junto com o pedido que parecia uma ordem de comprar um presente para ela, o coelho à beira do piano, o livro bona, o sutiã branco comprado no extra anhanguera, um carrinho para cada lado no supermercado. 

É preciso lembrar mais. Lembrar tudo, cada detalhe, deixar ficar, quando houver, a delicada folha de rosa seca encontrada ao acaso entre as duas páginas, pedir licença e conduzir o restante à terra. Até a terra bastar. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

#pas

Não me lembro de outro momento da (minha) vida em que tanto carniceiro in natura puxasse lenço branco do bolso e espanasse na cara do coleguinha até sair sanguinho do nariz. Esse poder vertical travestido de bom-mocismo, essa coisa de querer ter respeitado o seu direito de ser agressivo e intolerante é algo fascinante. 

Eu resumiria a situação dizendo que as pessoas estão loucas. Todas, todas elas, todinhas, pode me colocar aí no meio, certeza que eu não escaparia da lupa das """"""militâncias humanistas"""""" ou dos fanáticos por um país da família armada e abençoada por Deus. 

Estão todas loucas - ontologicamente loucas, faça-me o favor. Os loucos raíz vão aí desculpando que vocês estão todos oqueizinhos, inclusive vão sentando aí e ensinando o how to do do ofício.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Blog é o novo crochê. [ou: Estou de volta?]

Surgiu assim, meio que do nada, uma vontadezinha de criar um blog novo - você ri agora, em 2018, mas a história provaria que sou retrô digital vanguardista ou algo do gênero daqui a umas décadas, me deixa -, mas daí entrei numas de que preciso superar certo desconforto em me manter desconfortável e, bem, vou me manter escrevendo por aqui mesmo. Porque não existe conforto, perfeição, statum perfectum, essas coisas. A coisa fica chata volta e meia até para o Neymar, essa estrela literalmente cadente, imagine para mim, mamacita desempregada à beira dos 40. 

[À beira dos 40. Assim em número pareceu chocante, eu devia ter escrito por extenso. Agora é tarde e preciso aprender a lidar com isso nos próximos três anos.]

O resumo é: toco o barco por aqui. Vivendo a mesma sensação do rapaz que distribui panfleto de churrascaria na Barão de Itapetininga e talvez, no futuro, servindo de motivo de chacota para o meu próprio filho. [Não seja essa criança, Otto, por favor.] Não me importo: eu estava com saudades de escrever com a ilusão de ser lida. 


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Eu te perdoo por tudo, Jorge Vercilo.

2016 foi um ano complicado: o mundo está uma poça de chorume espesso, o futuro parece tenebroso e as pessoas estão insanas, radicais, sem a mínima tolerância com a opinião alheia e confundindo atitudes racistas, misóginas e xenófobas com ~posicionamentos progressistas. O conservadorismo está aí se reinstalando de forma tão avassaladora que até minha bisavó ficaria chocada. Mas à parte esse imenso e triste mundo externo, à parte essas pessoas ruins (apud IMPERADOR, Adriano), à parte esse ar podre que tratamos de estragar um tantinho mais a cada dia, eu tive um ano bom. Não um ano fácil; um ano bom, com novos planos e perspectivas, uma visão mais simples sobre o cotidiano e com a expectativa da chegada de uma vida nova que em breve roubará minhas noites de sono e meu coração. Acho que estou feliz, bastante. Ser feliz é bom, mas traz transtornos: não traz ideias brilhantes, não faz construir uma Enigma ou escrever poesia como e.e. cummings ou Sylvia Plath. Ser feliz traz rima infame e vontade de sair correndo descalço na areia com uma bata branca com estampa de girassol, garrafa de espumante nas mãos, sentindo o sol bater nos cabelos cor de mel, um doce mistério de rio. E é sabendo disso que eu finalmente te perdoo por tudo, Jorge Vercilo. Tamo junto.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Veste tua zorba furada e vem escorregar no tobogã farpado onde estamos lindamente a brincar.

Se todo mundo ao seu redor lhe parece estúpido, incapaz, parvo, limitado, equivocado, abobalhado, imbecil, irracional, tacanho, incompetente, bocó, ignorante, palerma, goiaba, desgovernado, obtuso, cansativo, enfadonho, energúmeno, senil, boçal, maçante, tapado -com exceções ora ~polêmicas, as quais só você julga entender, ora sublimes, às quais em sua cabeça delirante você se equipara-, e você brada virulentamente essa certeza aos quatro ventos em grande parte das suas manifestações e interações ~sociais, atenção: sua capacidade de autocrítica provavelmente está vivenciando os suspiros finais, e isso se revela no seu discurso de forma tão discreta quanto o anúncio do carro da pamonha. 

Você é esse vômito obscurecedor, tira essa marra e baila no teu regurgito. Henry Miller está morto, fera, vive a tua vida.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Felicidade é voto de pobreza.

Tem sido difícil tocar o script burocrático e prático dos dias enquanto a vida me puxa pelo braço para ir a uma praia paradisíaca pular no mar e beber uns drinques. Estar feliz parece interferir colossalmente no andamento padrão da vida, porque via de regra estou sempre conformada em não ser assim tão feliz, e isso garante que boa parte de toda a energia produzida pelo meu corpo -quando é produzida- seja direcionada a coisas que, na real, não têm lá grande relevância emocional. Mas como proceder quando alguma coisa de fato relevante exige total atenção e energia? Mandar um "olha, fera, foi mal não entregar o serviço, mas não deu mesmo, serião, precisei passar o dia curtindo o ilê e o charme da liberdade" talvez não seja boa ideia. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Movimentos.

- Vejo as duas sacolas grandes ali ao lado do guarda-roupa, à espera do transporte para doação, e sinto alívio. Pensando no misterioso fato de sempre ter muitas coisas para doar -roupas, livros, objetos etc.- ainda que raramente compre alguma coisa, cheguei à conclusão de que muito do que tenho vem de fora: família, amigos, conhecidos. Gosto da afetividade, dos pequenos gestos, mas gosto ainda mais da liberdade de manter comigo só aquilo com que eu quero ficar. Posse não tem nada a ver com gesto; desprezo aquele quando sem função prática, aprecio este quando desapegado de vaidade. A fixação de um afeto é líquida e circula pela memória, não por escombros. 

- Às voltas com os mortos, físicos e metafísicos, tenho lidado com o desconforto do vazio. É preciso verificar o que de fértil e sólido resta de um solo implodido diante dos olhos. Talvez eu esteja aprendendo a frequentar os funerais, a sujar o tênis na terra falsamente paradisíaca dos cemitérios para me contaminar dos germes que chacoalharão comigo pelas horas que se seguirem e chorar as lágrimas pelos mortos, todos os mortos, que talvez já estivessem mortos mas cujos corpos eu insistia em carregar sobre os ombros. 

- Há esses eventos que tornam as coisas pequenas ainda menores. As vindas que afirmam as idas, que rejeitam o supérfluo, que colocam o que é instável à prova, que dão firmeza e precisão às palavras que precisam emergir. Não há nada que exista sem movimento; o movimento que finalmente cede espaço ao que não tinha lugar e precisava ter, o movimento que higieniza o que está empoeirado e rinítico, o movimento que anistia o que se fixou por falta de vigor, o movimento que desloca as associações baseadas em ego, conveniência ou resiliência. Gosto do que vai, gosto do que fica; são complementares.

- Nada se compara à realidade, e os anos têm me convencido disso. Há muita feiura na passagem dos dias, na observação e no contato com o outro, nos mecanismos do cotidiano, mas nisso está o valor dos pequenos episódios de beleza. A realidade só pode ser admissível pela expectativa do raro, e o raro só se faz ver pelo movimento.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

sdds silêncio

Um bom desafio comunicativo seria propor que numa conversa não sejam utilizadas, sob hipótese nenhuma, as palavras "esquerdopata", "comunista", "petralha", "reaça", "nazi" e "coxinha". Talvez as pessoas não conseguissem se comunicar. Talvez as pessoas ficassem em silêncio. Ah, eu gosto tanto do silêncio! <3

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Freud entediadão.

Tenho dificuldade de interagir em grupos formados por pessoas que têm esse jeito ~contemporâneo de se comunicar: o sujeito espera desesperadamente uma brecha para falar de si e das coisas mui singulares que viveu, ignorando por completo o fato de haver outros seres vivos ao redor. Ninguém se ouve, ninguém conversa, os temas não se cruzam: as pessoas apenas falam. Ao que parece, a maioria dos interlocutores poderia facilmente ser substituída por um display do Freud entediadão ou da Marina Abramovic. Os relacionamentos não envolvem mais curiosidade e empatia pelo próximo, se parecem mais com aqueles game show em que quem aperta o botão primeiro tem o direito de falar, restando aos demais se contentarem com uma torta na cara. 

[Talvez eu esteja ficando velha e ranzinza demais.]

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Onde eu sei morar.

- Talvez seja mesmo preciso ressuscitar algumas coisas para deixá-las ir embora de vez. É o que mais tenho feito nas últimas semanas: estou cercada de mortos.

- Tenho passado os dias pensando em como ter uma relação harmoniosa com o meu corpo. Aparentemente, ter radicalizado na vida saudável ano passado (muita atividade física, alimentação orgânica e saudável, nada de açúcar, nada de gorduranada artificial) só me trouxe, literalmente, dor e sofrimento - além de uma internação hospitalar. Retomando certa bagaceira way of life, aos poucos vou encontrando algum equilíbrio e, a esta altura de 2016, talvez se desenhe no horizonte um jeito de conviver bem com meus combalidos órgãos.

- Gostaria de ter apenas uma atividade principal por dia e ter a liberdade de decidir o que fazer no tempo restante, mas, por algum motivo misterioso, quando me dou conta estou soterrada de compromissos a cumprir.

- Estudar literatura tem me soado um contrassenso inadmissível. Nunca li tão pouco por lazer como nos últimos anos. A vida se torna uma angústia em torno de teorias, compromissos e atividades acadêmicas que estraçalham qualquer possibilidade de puxar um livro da estante e ler com prazer. Escrever ficção -algo que faço desde adolescente por diversão- tem se tornado impossível. [É nisso tudo em que costumo pensar alguns segundos antes de fazer matrícula.]

- Nunca desconfiei tanto das pessoas como agora. Aparentemente tudo virou uma grande cilada, Bino.

- As pessoas ainda perdem tempo defendendo com os dentes seus políticos/partidos de estimação enquanto o número de moradores de rua aumenta de forma assustadoramente avassaladora. 

- Vivendo alguns dias em Lençóis, na Chapada Diamantina, percebi que não preciso sair do país para me sentir estrangeira, mas de outro jeito. Lá tive a sensação de estar muito confortavelmente morando em uma casa à qual eu não pertenço, mas adoraria pertencer. Pensei -muitas vezes, e muito seriamente- em me mudar para lá, dar aulas no grupo escolar para o João e a Fernanda, almoçar cortado de palma todo dia n'O Bode -que eu chamaria de Bode Grill-, passar a tarde comendo uns biscoitinhos Joaquim Teodoro recém-saídos do forno com a Geisa e circular pela Rua das Pedras cumprimentando os comerciantes todo fim de tarde num looping infinito até eu me tornar a pessoa que poderia chamar um lugar como aquele de casa: a pessoa que não tem pressa, que está integrada à natureza, que se conecta com a terra, que pula na cachoeira cheia de intimidade com as pedras em que os turistas se estabacam, que não tem alergias alimentares, que conhece as pessoas por nome e endereço, que precisa de muito pouco para viver, que diz "pronto" com propriedade, que acha que o único forró possível é o de raiz. 

- São Paulo, eu sei, é a casa barulhenta com roupa suja espalhada e macarrão à bolonhesa quentinho onde eu sei morar.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Débora.

A gente se conheceu em 1997 dentro do ônibus, uniformes iguais. Você estava no ginásio; eu, no colegial. Logo descobrimos que tínhamos muito em comum: morávamos no mesmo bairro, éramos viciadas em vôlei e achávamos os garotos do bairro uns tapados. Nos dias de aula, enquanto eu me espremia pelos corredores do colégio na tentativa de matar aula com as amigas e fugir da bedel de cabelo acaju e corpo mirrado, eu sempre passava na frente da sua sala para acenar e te mandar beijos. O seu relacionamento com a mãe não era bom, nem o meu com a minha, seu pai era um babaca alcoólatra e ausente, a gente não tinha muito pra onde ir - pais no pé, pouca grana. Na vila, o projeto de vida das garotas era casar e encher a casa de filhos com os quais iriam para a igreja todos os dias; no colégio, em outra cidade, mas tão provinciana quanto nosso bairro, o anseio da rapaziada era ir todo fim de semana às matinês de Pinheiros e beijar o maior número de bocas possível. A gente não queria nada disso, mas também não sabia o que querer. Talvez só mesmo vôlei, o rock que tocava na 89 e as noites de fim de semana na calçada falando bobagem com os meninos do bairro que também gostavam de vôlei e do rock que tocava na 89. Você levou a doçura a um extremo jamais visto, adoçando o leite com toddy, encharcando a pipoca com açúcar e anilina, fazendo estoques de chocolate e jujubas. Com você aprendi que o sabonete de enxofre era ótimo para espinhas e que o perfume maravilhoso que ficava nas roupas que eu te emprestava se chamava Kriska. Eu não conseguia te acompanhar nas corridas: você ali, deusa Nice, de caneleiras e rímel, rindo da minha cara por eu não aguentar chegar sequer até o pedágio. O seu sorriso era tão incrível que era impossível eu querer deixar de fazer graça quando a gente estava junta. Passávamos as tardes cantando errado as músicas do Offspring, esboçando planos para um futuro que teríamos em comum. No dia de prestar vestibular você estava ali comigo, me esperando na saída pra saber como eu tinha ido na prova - eu disse que provavelmente um lixo, você deu de ombros e a gente foi comer uns croissants de chocolate numa padaria ali perto. A cada decepção amorosa, vibe depressiva e frustração ali estava o colo uma da outra. Nunca caímos enquanto estávamos juntas. Mesmo com tanto afeto nos distanciamos: você foi aprovada num concurso e foi morar em outra cidade, na qual também começou a fazer faculdade, curiosamente o mesmo lugar onde agora faço mestrado e onde nos reencontramos no ano passado, após eu receber, muito feliz, uma mensagem sua. Nos vimos outra vez, trocamos muitas mensagens, telefonemas. Você me contou tudo: eu soube da morte da sua mãe, da mudança de estado de sua única irmã, da tentativa frustrada de aproximação com o pai, dos relacionamentos que não deram pé, do emprego corrosivo, da solidão, dos vícios, da solidão, das internações, da solidão, da vontade de desistir de tudo, da solidão, dos tratamentos, da solidão. Te chamei pra vir pra perto de mim, insisti pra largar tudo naquela cidade tóxica. Fiz tanto por telefone, por whatsapp, por telepatia e por onde mais minha comodidade permitiu fazer. Por vezes você sumia, preferia não falar, e eu daqui tocava a vida sem entender a ação que tudo o que você compartilhava comigo exigia. Desta vez você sumiu por muito tempo, e meu coração ficou aflito, pesado. Quando enxerguei o que precisava ser feito era tarde demais, irreparavelmente tarde demais. Agora só o que ficou foi uma dor que não tem tamanho dentro de mim, uma dor que finalmente extrapolou o virtual em que eu nos coloquei depois de a gente existir junta por tanto tempo. Você trouxe sua dor e eu a coloquei nas limitações da minha zona de conforto. Eu te peço perdão, amiga. Eu só queria ter estado aí pra te dizer que a gente vai dar um jeito em tudo isso. Desculpa por ter sido incapaz de te manter comigo, me perdoa por ter perdido você, Dedé.

9 de julho de 2015